
“O Pai, de ninguém é gerado ou procedente; o Filho é gerado eternamente do Pai”
João 1:14,18 (CFB89 2.3)
A doutrina da Geração Eterna do Filho é afirmada pela confissão de fé de Westminster e pela confissão batista de 1689, quanto a isso não nos resta dúvidas. Ambas as confissões, ortodoxas, porém, deixam de citar o clássico texto de Provérbios 8:2-25:
Provérbios 8:22-25 O SENHOR me possuiu no princípio de seus caminhos e antes de suas obras mais antigas. (23) Desde a eternidade, fui ungida; desde o princípio, antes do começo da terra. (24) Antes de haver abismos, fui gerada; e antes ainda de haver fontes carregadas de águas. (25) Antes que os montes fossem firmados, antes dos outeiros, eu fui gerada.
Uma pergunta surge a partir da omissão do texto de Provérbios: “Seria o texto de Provérbios 8:22-25 prova para a geração terna do Filho?”. Os pais batistas acreditavam que Provérbios 8 falava da geração eterna, ou se mantiveram ortodoxos somente com o texto de João 1?
Minha tese é que os pais batistas aceitaram o texto de Provérbios 8:22-25 como prova para a geração eterna do Filho. Não inseriram o texto por dois motivos: 1) para seguir o padrão utilizado na confissão de Westminster; e 2) para evitar textos que exigiriam deduções necessárias. A confissão de fé de Westminster, que foi a principal confissão utilizada pelos pais batistas para a compilação da Confissão de 1689 omitia o texto, então, uma vez que desejavam mostrar que as confissões eram irmãs ortodoxas, não havia motivos para modificar as referências. Já as deduções necessárias poderiam ser complexas para leigos. Entender o conceito de dedução necessária é primordial para perceber que Provérbios 8::22-25 diz respeito à geração eterna do Filho.
O conceito de dedução necessária é peculiar à confissão de fé batista de 1689. Vejamos a comparação entre a confissão de Westminster, Savoy e a cfb1689:
CFW & Savoy: “is either expresly set down in Scripture, or by good and necessary consequence may be deduced from Scripture” (ou é expressamente declarado na Escritura ou por boa e necessária consequência pode ser deduzido dela)
CFB89: “is either expressely set down or necessarily contained in the Holy Scripture” (está expressamente declarado ou necessariamente contido)
Samuel Renihan explicou a diferença em seu artigo publicado no JIRBS, 2016, p.123:
A primeira explicação é baseada na distinção entre consequências “boas” e consequências “necessárias”, conforme articuladas por George Gillespie e William Greenhill. Boas consequências são prováveis e favoráveis, enquanto as consequências necessárias são vinculativas e oficiais. Com base nesta distinção, o argumento para a edição dos Batistas é que boas consequências não devem ser elevadas ao nível das Escrituras como confessado no capítulo um da Confissão. Ou são verdadeiras ou não são. Assim, ou nossa fé e prática estão “necessariamente contidas” nas Escrituras, ou não.
O exemplo prático diz respeito ao batismo de infantes:
Atos 16:33 E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus.
É possível deduzir que havia infantes na casa do carcereiro e que, neste caso, os infantes também receberam o batismo se considerarmos que a probabilidade de uma família ter infantes era alta. Perceba, porém, que esta é uma dedução possível, mas não necessária. Era possível que houvesse infantes na casa do carcereiro? Sim, mas era possível que não houvesse infantes? Sim. Portanto, a existência de infantes e o batismo infantil não seriam “consequências necessárias […] vinculativas e oficiais”.
Posto isso, devemos investigar se Provérbios 8:22- se trata da geração eterna de Cristo por causa de uma dedução necessária ou possível. Se possível, devemos abandonar Provérbios 8 como prova da doutrina da geração eterna do Filho, se necessária, Provérbios deve ser usado para reafirmar a Geração Eterna do Filho. Para essa tarefa, utilizarei alguns argumentos de Nehemiah Cox, registrados em sua obra: “Vindiciæ veritatis”, de 1677, mesmo ano da confissão de 1689 (para detalhes sobre as datas 1677/89 verifique “Um Comentário Da Confissão De Fé Batista De 1689” disponibilizado no site oficial da editora O Estandarte de Cristo).
“Vindiciæ veritatis” foi um esboço de Teologia Sistemática que pretendia responder aos erros teológicos do missionário batista Thomas Collier. Thomas Collier havia sido enviado para plantar igrejas batistas a Inglaterra seiscentista, entretanto, durante seu trabalho, abandonou a ortodoxia cristã e, se identificando o que conhecemos por “biblicista”, defendeu e espalhou doutrinas espúrias, dentre elas, a negação da geração eterna do filho. A posição de Thomas Collier se resumia nestes seis pontos:
- Que ele não é o Filho de Deus apenas na natureza divina.
- Que ele é o Filho de Deus apenas quando considerado em ambas as naturezas.
- Que ele era a palavra como ele era Deus-homem e homem-Deus.
- Que como Deus-homem ele era uma criatura.
- Que este Deus Criatura e homem criou todas as coisas.
- Que esta Palavra Deus-homem se fez carne.
- Que ele é o Filho do Homem em ambas as naturezas.
A próxima Escritura que em insisto como prova de Cristo sendo falado como Filho de Deus antes da encarnação é Provérbios 8:22 ao fim do capítulo. Texto este que sempre foi uma ferida dolorosa para os inimigos do Filho de Deus e foi usado pelos Ortodoxos com grande vantagem, tanto contra os Arianos, quanto Socinianos. E, entre outros, o Dr Owe em suas Exercitações […] tão erudita e solidamente afirmou a verdade por mim alegada, a partir desse texto. Uma resposta tão completa a todas as objeções socinianas contra ela que não deixa nenhum fundamente para o Sr. Collier dizer que é uma questão muito difícil para qualquer homem resolver se esse texto pretende falar do Filho de Deus ou não.
Depois de afirmar que sua defesa é substancialmente ortodoxa e semelhante à do eminente Dr Owen, Coxe inicia suas deduções a partir de Provérbios mostrando que ela é uma dedução necessária. Não há como ignorar as evidências que levam, necessariamente a conclusão de Coxe e Owen:
Que o texto pretende falar de uma pessoa inteligente, quase todos os versículos do capítulo confirmam isso, pois todos os tipos de propriedades pessoais são atribuídos a sabedoria. E, se compararmos o capítulo 1 21. ad finem, devemos reconhecer que é a Sabedoria sendo falada é uma pessoa e uma pessoa Divina a quem todos temem e obedecem. […] Além disso, Cristo é expressamente chamado de Sabedoria no Novo Testamento: Mt 11:19; 1Co 1:30; e a palavra nestes textos é feminina assim como no texto de Provérbios […] Não há nada no texto de Provérbios que seja falado sobre a Sabedoria que não esteja em outras Escrituras atribuídas a Cristo. “O SENHOR me possuiu no princípio de seus caminhos” – Pv 8:22 e “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” – Jo 1:1. “Fui gerada desde a Eternidade”, ” cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.” Mq 5:2. 2 Timóteo 1:9 diz que a graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos dos séculos, e no verso 25 temos: “Antes que os montes fossem firmados, antes dos outeiros, eu fui gerada.”. Co l1:15,17 nos diz que: “”o qual é o primogênito de toda a criação” e que “ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.”, enquanto no verso 29 e 30 diz: “quando compunha os fundamentos da terra, então, eu estava com ele”. João 1:2 “Ele estava no princípio com Deus.” e o verso 30: “eu estava com ele […] e era cada dia as suas delícias, folgando perante ele em todo o tempo”. Mateus 3:17: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” e verso 32: “Agora, pois, filhos, ouvi-me”: Mateus 17:5 “escutai-o”
Aqui está, portanto, a dedução necessária do texto de provérbios, reafirmada por Coxe:
O Sr. Collier ainda objeta, que não há menção do Filho sob esse nome e título. O fato de Cristo não ser aqui chamado de Filho de Deus em termos não enfraquece em nada o testemunho deste texto de Provérbios, visto que é manifesto que se fala de tal pessoa que não pode ser outro senão o Filho de Deus. E a propriedade relativa da segunda subsistência na natureza divina é tão expressamente mencionada, que é abundantemente evidente que ele é aqui referido como o Filho de Deus antes do tempo: Isso encontramos já primeiro v. 22. […] Então aqui está a geração eterna da pessoa de quem se fala: Por ser desde a eternidade, não pode ser aplicável a ninguém, exceto àquele que é Deus por natureza; […]; não pode ser outro senão a natureza Divina subsistindo na propriedade incomum de um Filho.
Após expor esses argumentos provando que o texto de Provérbios 8 mostra que a Sabedoria possui perfeições divinas e portanto, a substancia da sabedoria é a substancia divina e a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Coxe caminha para o texto de Provérbios 30:4:
Mencionarei mais um Texto, onde temos não apenas a coisa, mas até mesmo o termo [Filho] claramente expressado: Prov. 30.4: “Quem subiu ao céu e desceu? Quem encerrou os ventos nos seus punhos? Quem amarrou as águas na sua roupa? Quem estabeleceu todas as extremidades da terra? Qual é o seu nome, e qual é o nome de seu filho, se é que o sabes?”. Que o Pai tinha um Filho antes da Encarnação de Cristo, cujo nome era Maravilhoso, e sua Glória tão indizível quanto a do Pai, é evidente. Portanto, o Filho de Deus, não como feito carne, mas como ele era desde a eternidade com Deus, tendo sua Essência e Glória que é mencionada aqui. […]Concluo, portanto, que não é apenas seguro e correto afirmar, mas, além disso, sempre foi um artigo da fé comum dos cristãos que o Filho de Deus era Filho, antes de se fazer carne, enquanto ele subsistia apenas na forma de Deus. Negar que ele era o Filho de Deus apenas na natureza divina, é por consequência justa, negar que ele tem uma natureza divina, visto que ou infere uma negação absoluta de sua pré-existência para sua Encarnação, ou pelo menos, que a natureza que ele tinha antes não era nem Pessoa, nem Filho, até que recebeu sua perfeição, e se tornou ambos pela união da natureza Humana a eles.
Se se nega que a “sabedoria gerada” de Provérbios é Jesus, se afirmar, necessariamente, que há algo, distinto do Filho que foi gerado eternamente. E, assim, deverá existir uma relação intratrinitariana de geração que não seja Cristo e o Pai. Logo, o Pai se torna Pai de dois Filhos e Cristo já não será o unigênito. Concluímos, portanto, que por dedução necessária, Provérbios 8 diz respeito à Pessoa de Cristo.
[…] A razão é um instrumento para as consequências legítimas (necessárias), para aquilo que estava oculto/implícito no texto. Desse modo, reafirmamos que Provérbios 8 se trata da geração eterna do Filho. […]
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