Resposta amigável ao irmão Sionista

Teologia bíblica é importante para o nosso posicionamento político em relação a Israel vs Palestina, por isso, pontuei algumas questões em meu facebook. O post recebeu um pequeno comentário. Devido ao tamanho do texto, optei por divulgar a resposta no blog. Não pretendo defender o antissemitismo; concordo que esta atitude é pecado, assim como, nas palavras de Igor Miguel, o “sionismo acrítico”.

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1º – Concordo com você quando diz que “a aliança com Abraão não pode ser desfeita”. Tanto a aliança com a semente espiritual quanto a semente carnal. A questão a ser levantada é qual a duração das alianças, ou, qual o sentido de “perpétuo/eterno”. Quanto a aliança com a semente espiritual, afirmo ser eterna no sentido absoluto (Hb 9.12; Hb 9.15; Hb 13.20;1Jo 2.25;). Quanto a aliança com a semente carnal, porém, somente no sentido relativo, ou seja, que no tempo ela cumpriu o seu papel. E, de fato, todas as promessas feitas a semente carnal de Abraão se cumpriram (Gn 15.18-21; 17.8 -> Js 21.43-45).

A aliança com Abraão está organicamente ligada a aliança no Sinai. Isso significa que a Antiga Aliança (Sinai), é uma progressão da aliança feita a Abraão. Ex 3.15-17; Ex 6.3-4,8; Dt 29.1, 12-13; Dt 30.19-20. Se essa progressão, que obteve seu ápice com Moisés, foi anulada como diz o apóstolo, Hb 8.7, então, não resta mais aliança com a carne.

2º – Você diz que “o templo deve ser construído”, e, em parte, concordo com você. O templo deve ser reconstruído, e a reconstrução começou. Assim como Israel Nacional era tipológico para o Israel Espiritual, o Templo nacional era tipológico para, dentre outros antítipos,  o Templo espiritual – que são os regenerados. Em outras palavras, os que professam a fé salvífica são Templo do Espírito – que se faz visível nas Igrejas locais. A igreja é o templo que está sendo reconstruído, não sob pedras naturais, mas sobre a Rocha Eterna que é Jesus Cristo, a Pedra de esquina, e sobre os fundamentos dos apóstolos 1Co 3.16; 1Co 6.19; Ef 2.19-22; 1Pe 2.5-8.

Você cita Daniel 12.11 e Mateus 24.15 mas ignorando o caráter tipológico das profecias e também o contexto imediato, especialmente em Mateus. Em todo o capítulo 24 a ênfase está nos falsos profetas e naqueles que se denominam “o Messias (Cristo)”, v5. Note a sequência: “enganarão a muitos; muitos abandonarão a fé; surgirão falsos profetas; enganarão a muitos; o amor de muitos esfriará;”, além disso os versos 23, 24 e 28 fortalecem o argumento de que o verso 15 se trata de falsos profetas que adentrarão no templo do Senhor (a igreja visível).

E o que é mais abominável do que alguém que entra no Templo visível do Espírito Santo para blasfemar contra Cristo? É por acaso o templo nacional de Israel mais santo que a igreja? O apóstolo mostra esta mesma posição em 2Ts 2:1-7. Veja que os sinais e falsos milagres estão sempre ligados a abominação, v9-10. Por fim, o apóstolo alerta a igreja contra as ciladas dos falsos profetas, v15. Por acaso, haveria perigo para crentes no Brasil adorarem no templo nacional em Jerusalém?

Você cita Daniel 12.11 e a reconstrução do templo como o cumprimento da aliança com Abraão, mas o texto afirma que o holocausto seria retirado do templo para que a abominação ocorresse. Mas não faz sentido Deus cumprir a aliança com a descendência natural de Abraão a fim de restituir o sistema sacrificial, caso contrário, anulamos todo ensino de Hebreus. E, qual o objetivo do templo sem o sistema sacrificial? Qual o sentido do lugar Santíssimo e o Santo Lugar se agora não há mais separação entre eles? Se não há necessidade de derramamento de sangue? Em Hebreus 9.1,8-9; o apóstolo também explica que o templo teve papel tipológico, ou seja, uma vez que o antítipo veio, não faz-se necessário o tipo. O tipo chamado templo “é figura para o tempo presente”. Se o tempo presente é claro, qual a razão do ressurgimento daquilo que é obscuro?

3º – Discordo quando você diz que “não para a volta de Jesus, mas para que haja a grande tribulação”.  Você se contradiz porque se é para a grande tribulação, e ela precede a segunda vinda de Cristo, logo é para a volta de Cristo. Ou Jesus poderia voltar sem a tribulação? Além disso, repito, o templo está sendo reconstruído sobre a Rocha Eterna, e, neste mesmo tempo a grande tribulação está vigente. A morte de Cristo foi o “fim do início”, o Pentecostes o “início do fim”. Não nego a progressão (intensificação) da tribulação, mas nego que ela não seja realidade presente. Acredito que G.K. Beale explicou muito bem a expressão “já, mas ainda não”.

O profeta Daniel recebeu do Senhor revelações que diziam respeito aos tempos finais. Daniel foi usado por Deus para descrever o dia em que o Reino de Cristo seria inaugurado ou o dia que o Senhor iniciaria a expansão do seu Reino Celestial. Dn 2:27-28. O profeta fala das coisas que “há de ser nos últimos dias”. Não existe em Daniel ideia de algo iminente.

Por outro lado, João, que utiliza o profeta Daniel, enfatiza a iminência dos acontecimentos proferidos por Daniel. Ou seja, o que para Daniel ocorreria em tempo longínquo, para João está prestes a se intensificar Apo 1:1; 1:3; 1:19. Não devemos aguardar o dia da grande tribulação como se ele não tivesse iniciado. Já estamos em meio a tribulação (Já). Obviamente, que ela receberá uma grande intensificação antes da vinda de Jesus (mas ainda não). O próprio apóstolo se identificou na tribulação Ap 1.9 juntamente com as igrejas Ap 2.9-10, 7.14. Paulo também mostra a realidade tribulacional da igreja em Rm 5.3,8.35,12.12; 2Co 4.17.

Para mais respostas com muito conteúdo exegético, recomendo a leitura das seguintes obras:

  1. The Temple and the Church’s Mission por G.K. Beale
  2. The end times made simple (vol 1&2) por Samuel Waldron
  3. Macarthur’s millenial manifesto: a friendly response por Samuel Waldron
  4. Better than the beginning por Richard Barcellos
  5. The boook of Revelation por G.K. Beale
  6. O Israel de Deus: passado, presente e futuro por O. Palmer Robertson
  7. O Reino de Deus e a igreja por Geerhardus Vos
  8. As alianças divinas por Nehemiah Coxe
  9. O Pacto de Redenção e o Pacto de Obras por Arthur Pink
  10. Mais que vencedores por W. Hendriksen

 

Para a glória de Deus, edificação mútua

Em Cristo, Renan Abreu

 

 

2 comentários sobre “Resposta amigável ao irmão Sionista

  1. Caro irmão. Certamente não discordo dos teus termos, embora minhas breves palavras possam ter dado esta impressão. Aprecio tua diligência em busca das verdades de Deus, algo que certamente é um dom de Deus. Tenho também buscado aprofundar cada vez mais nas escrituras e tenho encontrado um sentido mais amplo das argumentações teológicas. Muitas vezes procuramos encontrar respostas definitivas daquilo que ainda vemos como espelho I Co 13:12. Não tenho publicado em meu blog há algum tempo, mas brevemente começarei uma série. sinta-se a vontade em comentar, certamente seremos edificados em Cristo.

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    • Irmão Adeilson,

      Aproveitei seu comentário para construir um texto de modo polêmico – é mais chamativo, cativa o leitor e induz às pesquisas. Sei de tua maturidade cristã, por isso, me senti na liberdade de escrever desse modo tão popular durante o século XVII. Infelizmente, o mundo ficou mais chato após as redes sociais. A regra geral é: Não se pode debater ideias sem perder a amizade. O que, neste caso, certamente não aconteceu, e, creio eu, não acontecerá.
      Suas contribuições, concordando ou discordando, serão bem-vindas. Conte também comigo!
      E, volte à ativa, seus posts certamente serão úteis à igreja de nosso Senhor. 🙂
      Em Cristo

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