Aliancista e Credobatista?

Por que sou Aliancista e credobatista? Essa era a pergunta mais comum enquanto me graduava em Teologia pelo Seminário Presbiteriano RDNE.

1- A resposta era simples; e ainda o é!  O Pacto de Graça é um Pacto de Graça para os eleitos, mas para Cristo é um Pacto de Obras. Cristo, o segundo Adão, foi perfeito na lei de Deus para obter aquilo que o primeiro Adão não conseguiu. Por isso, é certíssimo que aqueles que estão no Pacto da Graça são salvos; Cristo foi perfeito em Obras. Definitivamente, ninguém pode fazer parte da família pactual e, ainda assim, não obter a salvação, caso contrário o Pacto de Graça para os eleitos seria de Obras. Os benefícios, aplicados pelo Espírito Santo aos eleitos, e somente a eles, são resultados dos méritos obtidos por Cristo.

2- Se o batismo dá o direito apenas aos privilégios externos da igreja de Cristo, logo, há uma bênção intermediária que não é comum (a todos os pecadores, por exemplo, a chuva) e nem exclusiva da igreja (a regeneração). Se isso é correto, então Jesus derramou seu sangue para pecadores os quais ele não salva. Se ele derramou seu sangue para pecadores que não salva, ou o sangue de Jesus não é suficiente para salvação ou o Jesus falhou na cruz. Neste caso, as duas afirmações não condizem com o ensino de Cristo. Portanto, quando um não-regenerado faz uso de um privilégio exclusivo dos regenerados, comete gravíssimo pecado. Sabendo que os regenerados produzem frutos de arrependimento, é dever da igreja perscrutar o indivíduo antes do batismo. Em casos de hipocrisia, quando a igreja identificá-los deve executar a disciplina com o intuito de, ou levá-lo ao arrependimento, ou, em caso de obstinação, tratá-lo como um pagão que fez uso indevido do privilégio exclusivo dos regenerados. Portanto, credobatistas zelam pela pureza da igreja, enquanto pedobatistas agem de modo negligente.

3- A tradição batista reformada reconhece o caráter progressivo da revelação bíblica e a unidade da Palavra de Deus. O caráter progressivo foi explicado através de modelos hermenêuticos que afirmam a unidade entre o Antigo e Novo Testamento. Nas diferentes doutrinas do pacto encontram-se a raiz dos distintivos entre as tradições reformadas batista e presbiteriana. Teólogos importantes como John Bunyan[1], Nehemiah Coxe e Benjamin Keach foram pactuais e defenderam as insígnias batistas, de modo pactual, ainda no século 17 e 18, e, de modo indireto, receberam contribuições de John Owen. Os pais batistas as registraram nos capítulos 7 e 19 da Segunda Confissão de Fé Londrina de 1689[2].

Ao fazer uma comparação entre o federalismo dos batistas e presbiterianos do século 17, Pascal Denault mostra em seu livro, The Distinctiveness of Baptist Covenant Theology[3], as razões pelas quais os editores[4] da Segunda Confissão de Fé Londrina modificaram a Confissão de Fé de Westminster, especificamente o capítulo 7, “O Pacto de Deus”.

Benjamin Keach, no sermão The Everlasting Covenant[5], discutiu as diferenças entre o conceito de antiga e nova aliança e busca provar biblicamente que existe uma antítese entre elas. Diferente do que afirmaram os pedobatistas do século 17, Keach reiterou a distinção substancial das alianças, para isso sustentou que somente regenerados, tanto no antigo quanto no novo testamento, estão no pacto de graça.

Para ficar mais claro a relação de unidade entre o antigo e novo testamento e expurgar os conceitos que estavam sendo imputados, de forma equivocada, aos batistas do século 17, Nehemiah Coxe mostrou em Covenant Theology: From Adam to Christ[6] como o pacto de graça deve ser compreendido na antiga aliança. Ele explica que a interpretação tipológica tem papel fundamental para a tradição batista e que todos os pactos veterotestamentários[7] tipificam a representação federal de Cristo. Além de mostrar a existência de duas alianças com Abraão, uma da circuncisão, outra, eterna para salvação. A obra de Coxe esclareceu, principalmente, como a aliança da circuncisão possui o caráter subserviente e tipológico do pacto de graça.

O trabalho de John Bunyan intitulado The Doctrine of Law and Grace Unfolded[8] aborda o pacto mosaíco na tentativa de provar a continuidade do pacto de obras na antiga aliança. Bunyan apresenta a antítese da antiga e nova aliança focando na primeira parte do seu escrito o pacto mosaico. Apesar de Bunyan defender que o Pacto Mosaíco é a formalização do Pacto de Obras iniciado no Éden, seu pensamento não deixou de trazer contribuições importantes à sistematização do capítulo 7 em períodos posteriores.

Por fim, o comentário An Exposition of the Epistle to the Hebrews[9] do puritano John Owen, descreveu a relação entre os conceitos do pacto mosaíco e nova aliança. Uma questão levantada por John Owen é se a nova aliança possui ou não uma substância diferente da antiga aliança (Moisés).

4- O ensino sobre o Pacto de Graça encontra-se espalhado por toda a Escritura, de Gênesis a Apocalipse. Fica evidente com estes trabalhos supracitados que os primeiros Batistas conseguiram ver a ideia Pactual da revelação divina. Alguns modelos falharam porque tentam inserir o modelo na Escritura, caso da Confissão de Westminster e dos modelos de John Bunyan e John Gill. Creio que a Escritura deve regular a confissão de fé e não o contrário, assim, a tradição batista (registrada na CFB1689)  expôs, de modo bíblico, o modelo natural encontrado na Escritura, enquanto o modelo pedobatista falha radicalmente.

 


[1] Bunyan não descreve a Teologia Pactual nos moldes da Confissão de Fé Batista de 1689. Segundo ele, o Pacto de Moisés é a formalização do Pacto de Obras realizado com Adão.
[2] Também conhecida como Confissão de Fé Batista de 1689 (CFB89 ou CFB1689)
[3] DENAULT, Pascal. The Distinctiveness of Baptist Covenant Theology: A comparison between seventeenth-century particular baptist and paedobaptist federalism. Vestavia Hills: Solid Ground Christian Books, 2013.
[4] Dentre eles Williams Collins, John Ball, Willian Kiffin, Nehemiah Coxe e Benjamin Keach
[5] KEACH, Benjamin. The Everlasting Covenant, A Sweet CORDIAL for a drooping Soul: Or, The Excellent Nature of the Covenant of Grace Opened: IN A SERMON. 1692. Disponível em: <http://quod.lib.umich.edu/e/eebo/A47489.0001.001?rgn=main;view=fulltext>. Acesso em: 15 out. 2015.
[6]  MILLER, Ronald D; RENIHAN, James M.; OROZCO, Francisco (Ed.). Covenant Theology: From Adam to Christ. Palmdale: Reformed Baptist Academic Press, 2005.
[7] Os pactos que estão revelados no Antigo Testamento.
[8] BUNYAN, John. The Doctrine of Law and Grace Unfolded. New York: A Great Christian Books, 2014.
[9]  MILLER, Ronald D; RENIHAN, James M.; OROZCO, Francisco (Ed.). Covenant Theology: From Adam to Christ. Palmdale: Reformed Baptist Academic Press, 2005.

2 comentários sobre “Aliancista e Credobatista?

  1. “O modelo pedobatista falha radicalmente “. Qual a base Bíblica para isso? Você apenas mostrou os erros dos batistas, mas nao refutou os pedobatistas. Creio que os batistas falham radicalmente, segundo o que você apresentou.

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    • O post não tem intensão de refutar pedobatistas e nem de ser uma apresentação exegética. Se você busca um trabalho exegético leia as obras citadas 🙂

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