
Minha resposta curta é: não! Para desenvolver essa resposta, trago ao debate o grande teólogo James Ussher, que fez uma bela exposição sobre a encarnação de Cristo em sua obra “O mistério da encarnação do Filho de Deus“, publicada em 1643. Segundo Ussher, a encarnação de Cristo consiste na união hipostática entre as naturezas divina e humana. Deus assumiu a natureza humana, mas não uma pessoa humana. A Pessoa de Cristo pertence à divindade; do contrário, seria acrescentada uma quarta pessoa à Trindade, o que seria um absurdo bíblico, lógico e teológico. Ussher afirma o seguinte:
“E aqui devemos considerar que a Natureza Divina não assumiu uma Pessoa humana, mas a Pessoa divina assumiu uma Natureza humana; e que, das três Pessoas Divinas, não foi nem a primeira nem a terceira que assumiu esta Natureza, mas a Pessoa do meio, que deveria ser o mediador entre Deus e os homens. Isso era essencial, tanto para preservar a integridade da bendita Trindade na Divindade quanto para engrandecer a Humanidade por meio da relação que a segunda Pessoa, o Mediador, tinha com o Pai. Pois, se a plenitude da Divindade houvesse habitado em uma pessoa humana, então uma quarta Pessoa teria sido necessariamente adicionada à Divindade. E se alguma das três Pessoas, além da segunda, tivesse nascido de uma mulher, haveria dois Filhos na Trindade. Contudo, agora, o Filho de Deus e o Filho da bendita Virgem, sendo uma única Pessoa, é também um único Filho; e assim nenhuma alteração foi feita nas relações das Pessoas da Trindade.”
Ao tratar da natureza humana de Cristo, Ussher afirma que Ele assumiu a natureza advinda da descendência de Abraão. Assim, Cristo tomou para si todas as propriedades da natureza humana, bem como suas qualidades. Jesus se sujeitou a todas as paixões humanas; contudo, o termo “paixões” não deve ser entendido em seu sentido moderno, relacionado ao amor ou a todo tipo de tentação específica. Segundo Aristóteles, as paixões da alma são afeições que envolvem prazer ou dor e influenciam o julgamento e a ação humana. Elas incluem ira, medo, confiança, amizade, ódio, vergonha, compaixão e inveja. Ussher confirma que Jesus, em sua natureza humana, foi sujeito a paixões:
“Que Ele era um homem sujeito a paixões semelhantes às nossas. Sim, nos dias de Sua carne, Ele se sujeitou às mesmas fraquezas que encontramos em nossa natureza frágil e foi cercado por enfermidades semelhantes; e, em suma, em todas as coisas foi feito semelhante a Seus irmãos, exceto no pecado.”
Seguindo o argumento de Ussher, afirmamos que Jesus não precisava ser tentado em absolutamente todos os pecados possíveis que cada indivíduo humano enfrenta. Devo lembrar que nem todas as tentações são comuns a todos os homens. Alguns são tentados pelo álcool, outros por diversas drogas, outros pelo sexo, outros pelo entretenimento. O fato de alguém não ser tentado em todas as áreas não o torna menos humano. O que caracteriza a natureza humana é a possibilidade de ser tentado, e não uma tentação específica. Portanto, não era necessário que Jesus sofresse todas as tentações possíveis para ser humano. Jesus não foi tentado a desperdiçar tempo diante de uma tela de celular, mas foi tentado por Satanás a desonrar a Deus por causa de comida. Veja o que James Ussher afirmou:
“No entanto, devemos considerar que, assim como Ele não assumiu uma Pessoa humana, mas uma Natureza humana, não era necessário que Ele assumisse enfermidades pessoais, como loucura, cegueira, coxeadura e tipos específicos de doenças que acometem apenas alguns indivíduos e não todos os homens em geral. Antes, Ele tomou sobre si aquelas que acompanham toda a humanidade, como fome, sede, cansaço, tristeza, dor e mortalidade.”
Da mesma forma, não era necessário que Jesus tivesse tentações pessoais específicas de determinados indivíduos. Bastava que Ele sofresse tentação como verdadeiro homem, pois todo verdadeiro homem, no mundo caído, é tentado.
Alguém poderia argumentar que, nesse caso, Jesus não se identificou plenamente conosco, pois não experimentou a tentação sexual como alguns experimentam. Ora, esse argumento parte do pressuposto de que uma tentação específica seria mais intensa ou representativa da humanidade do que as demais. No entanto, a força da tentação não está no tipo de pecado em questão, mas na corrupção da natureza humana. Alguém que não é tentado sexualmente, mas é tentado por apostas esportivas, poderia facilmente considerar que sua tentação é maior do que a tentação sexual. Mais uma vez, a intensidade da tentação não está na tentação em si, mas na condição caída da natureza humana.
“Não vos sobreveio nenhuma tentação, senão humana; mas fiel é Deus, o qual não deixará que sejais tentados acima do que podeis resistir; antes, com a tentação, dará também o meio de saída, para que a possais suportar.” (1 Coríntios 10:13).
Leia a obra na íntegra: