Miles Barne (1682), Dois Reinos e o Libertarianismo Familiar

Miles Barne, falecido em 1709, foi um acadêmico e religioso inglês, filho de Miles Barne, reitor de Bishopsbourne cum Barham, no condado de Kent. Ele foi membro do Peterhouse College, na Universidade de Cambridge, onde ingressou aos 17 anos vindo da Westminster School, em 1656. Obteve os graus acadêmicos de Bacharel em Artes (1659), Mestre em Artes (1663) e Doutor em Divindade (1682), além de ter sido fellow (membro acadêmico) do Peterhouse College entre 1662 e 1689. Atuou como vigário de Madingley, em Cambridgeshire, entre 1664 e 1682 [https://www.british-history.ac.uk/no-series/suffolk-history-antiquities/vol1/pp81-96]

A crítica de Miles Barne em um sermão publicado em 1682 a Thomas Hobbes gira em torno da concepção de governo e da natureza humana, que são fundamentais para a doutrina política de Hobbes. No sermão pregado em Cambridge, Barne refuta a visão hobbesiana do Reino dos homens, argumentando a partir da distinção entre o Reino de Cristo e os reinos deste mundo.

A Natureza do Reino dos Homens segundo Hobbes

Thomas Hobbes, em sua obra Leviatã, sustenta que o Estado surge da necessidade de controlar a natureza humana, que ele considera inerentemente egoísta e violenta. Para Hobbes, a vida no estado de natureza é caracterizada pela guerra de “todos contra todos” (bellum omnium contra omnes), e, portanto, os homens precisam submeter-se a um poder absoluto para garantir a ordem e a segurança. Esse soberano, o Leviatã, detém o monopólio da força e da legislação, sendo a única autoridade capaz de evitar o caos.

O Reino dos homens, para Hobbes, não é guiado por princípios espirituais, mas pela necessidade de sobrevivência e pelo desejo de segurança. A autoridade política não deriva diretamente de Deus, mas do pacto social, no qual os indivíduos transferem seus direitos ao soberano em troca de proteção.

A Relação entre o Reino dos Homens e a Natureza Humana em Hobbes

Hobbes fundamenta sua teoria política em uma visão pessimista da natureza humana. Ele rejeita a ideia de que os homens são naturalmente inclinados ao bem e, em vez disso, argumenta que eles agem por interesse próprio. Dessa forma, a moralidade e a justiça não são princípios absolutos, mas criações humanas, dependentes da existência de uma autoridade forte.

Essa visão contrasta fortemente com a perspectiva cristã ortodoxa, que vê a natureza humana como caída, mas ainda portadora da imagem de Deus, podendo ser redimida pela graça divina. Barne critica Hobbes justamente por sua visão reducionista da humanidade, argumentando que a verdadeira natureza do homem não é apenas brutal e egoísta, mas também capaz de virtude e piedade.

A Posição de Miles Barne

No sermão, Barne afirma que a natureza humana, apesar da queda, não é tão brutal e degradada quanto Hobbes sugere. Ele insiste que há um princípio de civilidade e compaixão natural nos homens, algo que Hobbes negaria. Para Barne, a ideia de que o poder político se baseia apenas na força ou no medo é uma deturpação da ordem divina.

Além disso, Barne sustenta que o Reino de Cristo não se baseia na força terrena, mas na transformação espiritual. Ele diferencia os reinos mundanos, que precisam de coerção e guerra, do Reino de Deus, que conquista pela fé, pelo arrependimento e pela obediência voluntária. Essa visão refuta a noção hobbesiana de que a religião e o governo devem ser instrumentos do soberano absoluto para controlar a população.

Por fim, Barne argumenta que qualquer tentativa de fundar a autoridade política exclusivamente no contrato social e não na vontade divina leva ao erro e ao caos moral. Ele rejeita a ideia de que a soberania pertence ao povo, defendendo que todo governo legítimo tem sua autoridade concedida por Deus, não pelo consentimento humano.

O Libertarianismo Familiar

A crítica de Barne não tinha apenas o objetivo de defender a teologia tradicional, mas também de sustentar o status quo, ou seja, a monarquia, a partir de uma teologia dos dois reinos. Para ele, a autoridade civil deveria refletir a autoridade divina, pois toda forma de governo era estabelecida por Deus. Ora, se Deus instituiu o rei, então todos deveriam submeter-se a ele.

Há muitos argumentos relevantes em Barne que, como um paleolibertário e defensor da teologia dos dois reinos, considero válidos. Sua crítica a Hobbes é fiel ao ensino das Escrituras. É evidente que todos os seres humanos são maus por natureza e herdaram o pecado original de Adão. Contudo, isso não significa que tenham deixado de ser imagem e semelhança de Deus. Aqui entra a noção de hábitos:

O homem caído é habitualmente inclinado para mau, assim como o regenerado é habitualmente inclinado para a bondade. No primeiro caso, por determinadas circunstâncias, o ímpio pode agir com bondade e mansidão e buscar obedecer à lei natural. No segundo, os santos podem agir, em algumas circunstâncias, com maldade e transgredir essa lei. Assim, o hábito dos ímpios é se inclinar para o vício, enquanto o hábito dos justos é se inclinar para a virtude.

Apesar de a crítica de Barne ser, em parte, justa, sua solução apresenta falhas. Não tanto em relação ao seu conceito de natureza humana, mas no que diz respeito à manifestação da vontade divina. A crítica de Barne não é apenas contra Hobbes, mas também contra qualquer concepção de governo que se afaste do modelo monárquico e da submissão absoluta ao rei. O fato de Deus erguer reis não implica que Ele não os destrone, assim como o fato de estabelecer uma monarquia não significa que esta deva ser perpétua. Deus, em Sua soberania, pode modificar as formas de governo por meio de Sua providência. Dessa forma, a república não possui menos autoridade do que a monarquia.

Ainda dentro desse contexto, uma sociedade organizada pelo agrupamento de famílias, tendo plena liberdade para escolher em qual grupo se unirá para o exercício da magistratura, não possui menos autoridade ou menor ação de Deus. Com base nos mesmos princípios defendidos por Barne, sustento que a magistratura civil deve ser exercida pelo chefe de família, permitindo que as famílias escolham livremente com quais outras desejam se aliar para a administração da justiça dentro desses agrupamentos.

Aqui, devo ressaltar que o espírito revolucionário, tão repudiado por Barne, deve igualmente ser rejeitado pela Igreja de Cristo. A defesa de um novo modelo de organização social não implica necessidade de revolução. Pelo contrário, à medida que o Reino de Cristo avança e persuade os homens às decisões divinas, a melhor ferramenta para essa transformação continua sendo a oração e a pregação do Evangelho.

O reino dos homens não se fundirá ao Reino Espiritual, mas aqueles que pertencem ao Reino Espiritual, movidos pelo Espírito, serão capazes de usar sua criatividade para reduzir os vícios dos ímpios e incentivar a virtude dos justos. Ou seja, por meio da Palavra pregada e da oração, podemos contribuir para a construção de sistemas menos injustos no reino dos homens, sem jamais confundir ou misturar sua natureza distinta com o Reino de Cristo, mantendo a separação e a interseção entre os dois reinos. O avanço do Reino de Cristo não busca transformar diretamente as estruturas políticas, mas que sua influência moral e espiritual pode levar a mudanças naturais e progressivas na sociedade.

Barne provavelmente também reconheceria que Deus pode mudar os governos. No entanto, sua defesa central é que a submissão à autoridade civil é um princípio divino e, portanto, a monarquia vigente deveria ser respeitada como ordem estabelecida por Deus. Eu reafirmo que a formação de agrupamentos autônomos de famílias para o exercício da magistratura não representa uma forma de resistência à autoridade civil, pois a lei natural confere à família a liberdade de escolher e firmar pactos. A autoridade natural supera a de um governo baseado em um pacto social entre indivíduos. A família, desde o Éden, antecede o Estado.

Um exemplo disso pode ser visto na história de Abraão, que, por ordem de Deus, deixou sua parentela para se estabelecer em outra terra e firmar alianças com outras famílias, como ocorreu com seu sobrinho Ló e diversos outros. As famílias de Abraão e Ló se tornaram autônomas politicamente. Claro, está não foi uma ordem para a humanidade, mas um dos modelos usadas na Escritura. E, não encontramos nenhuma ordem Divina para aplicação de algum modelo específico de magistratura sob a Nova Aliança. Portanto, podemos buscar no Antigo Testamento modelos a serem aplicados.

A meu ver, a ideia democrática de que um indivíduo pode escolher livremente seu próprio governo é utópica, pois, inevitavelmente, sempre haverá aqueles que, contra sua vontade, deverão se submeter a uma autoridade civil imposta por uma minoria. Sendo a família a base nuclear da sociedade, essa decisão não deveria estar nas mãos de um indivíduo isolado, mas sim da unidade familiar. Dessa forma, a família receberia a autoridade natural para escolher sua própria magistratura. Poderia haver dissidentes dentro de cada família que não concordam com a decisão? Sim, Mas, no modelo familiar a obediência e a autoridade são mais naturais e orgânicas, já que há laços de lealdade, cuidado e continuidade geracional, tornando a submissão menos forçada do que em um sistema onde indivíduos sem vínculos naturais são governados por outros, portanto, um sistema menos injusto. Além disso, com a proximidade parental o exercício da misericórdia e da liberdade para criação de uma nova família estariam plenamente disponíveis. A proximidade parental e a estrutura familiar permitem uma resolução mais pacífica de conflitos, promovendo ordem social sem necessidade de coerção estatal excessiva. Isso evitaria todas os problemas, injustiças e tiranias? Certamente que não. Mas as injustiças, problemas e tiranias poderiam ser reduzidos, para a glória de Deus.

Lei o Sermão de Miles Barne na Íntegra

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.