
O debate sobre o canto na adoração cristã sempre foi um tema controverso ao longo da história da Igreja. Entre os que rejeitavam a “salmodia exclusiva” — ou seja, a ideia de que apenas os Salmos bíblicos deveriam ser cantados no culto — encontravam-se aqueles que defendiam a liberdade de compor e cantar novos hinos de louvor a Deus. No entanto, Thomas Grantham, que apresentamos aqui se opunha à salmodia exclusiva de uma maneira peculiar: embora não negasse a legitimidade de cânticos além dos Salmos, ele rejeitava a prática congregacional de cantar em uníssono, onde toda a assembleia entoava os louvores conjuntamente.
Para ele, o canto deveria seguir um modelo mais próximo ao que via nas Escrituras, onde um indivíduo guiava o louvor, enquanto os demais acompanhavam em espírito, respondendo com aprovação e edificação. Seu argumento se baseia na falta de evidências bíblicas para o canto coletivo em voz alta, bem como no risco de transformar o louvor em mera formalidade ou em um exercício mecânico sem real entendimento.
A Falta de evidências bíblicas para o canto coletivo em voz alta seria, portanto, coerente com o Princípio Regulador do Culto (PRC)? Ainda não tenho respostas. Essa perspectiva, incomum tanto para os defensores da salmodia exclusiva quanto para os adeptos do canto congregacional moderno, oferece um ponto de vista instigante.
SECT. II. Da prática da Igreja Primitiva no canto dos Salmos.
A Igreja Primitiva não utilizava outra forma de canto além daquela que já mencionamos. Esta é uma afirmação negativa e permanece válida com base nos fundamentos apresentados anteriormente, a menos que o contrário possa ser demonstrado com argumentos mais sólidos. E, como alguns tentam sustentar uma posição contrária, analisaremos os argumentos que eles apresentam.
Primeiramente, alega-se que nosso bendito Salvador cantou um hino com seus discípulos na última ceia. No entanto, há algumas considerações a serem feitas sobre essa alegação.
- Existem diferentes leituras ou interpretações dessa passagem. Embora nossa versão diga que “cantaram um hino”, outras, como a de Montano, traduzem como Hymno dicto, ou seja, “um hino sendo dito”. Nossos antigos tradutores, possivelmente a partir do árabe, traduziram a passagem como “quando deram graças” ou “quando disseram a bênção”. Isso indica que não é necessário entender que “cantaram um hino” significa um cântico musical entoado em conjunto, pois poderiam ter louvado a Deus sem necessariamente fazê-lo dessa maneira.
- Ainda que concedamos que essa interpretação seja válida – como de fato é –, um hino pode ser cantado sem que todos falem ao mesmo tempo. Além disso, o texto original não especifica que “eles cantaram”; não está claro quem pronunciou ou cantou esse hino. É bastante provável que tenha sido o próprio Cristo, pois nunca vemos os discípulos tomando a iniciativa de dar graças quando Ele estava presente à mesa. Mesmo que aceitemos o acréscimo interpretativo de que “eles cantaram”, isso não prova que todos cantaram juntos. Com frequência, lemos expressões como “eles oraram” ou “eles deram graças”, sem que isso signifique que cada indivíduo da assembleia tenha participado verbalmente da ação.
- Não há qualquer evidência sobre qual foi esse hino – se era premeditado ou espontâneo, se era um Salmo de Davi ou de outro salmista. O que sabemos é que Cristo não precisava recorrer a palavras compostas por outros, como nós precisamos. Se houvesse um salmo específico sendo usado, seria provável que tivesse sido registrado como um modelo sagrado para a celebração contínua da Ceia do Senhor. Contudo, tudo o que sabemos é que “um hino foi cantado”, sem qualquer indicação das palavras utilizadas. Isso sugere que não estamos presos a uma forma fixa de palavras, mas que temos liberdade para oferecer louvor da maneira mais adequada a essa sagrada ordenança, conforme a graça concedida por Deus para ministrar nesses momentos.
Se nosso Salvador não usou um Salmo conhecido de Davi, então os discípulos não poderiam tê-lo acompanhado no canto, a menos que supuséssemos que Ele cantou um trecho para que os demais repetissem depois. No entanto, essa suposição não tem fundamento algum. Assim, mesmo este exemplo – que é o único argumento possível com alguma base no Novo Testamento – não nos permite concluir, com certeza, que o canto congregacional em uníssono fosse uma prática estabelecida nas assembleias cristãs. Tampouco há qualquer indício razoável que justifique tal prática.
E embora lemos sobre a celebração posterior desta sagrada ordenança — a Mesa do Senhor — pelos Apóstolos e pela Igreja Primitiva, não encontramos nada que justifique um canto desordenado, como o que muitos praticam hoje. Tampouco há qualquer registro de um Salmo específico que tenham utilizado, seja de Davi ou de sua própria composição. O que nos é claramente informado é que eles perseveravam no partir do pão, no louvor a Deus e nas orações (Atos 2.42, 47).
Quando Paulo relata a instituição desse rito em 1 Coríntios 11, ele menciona apenas que Cristo tomou o pão e o vinho, os abençoou e deu graças. Da mesma forma, ao descrever a prática da Igreja em 1 Coríntios 10, ele apenas diz: “O cálice da bênção que abençoamos” e nada menciona sobre qualquer hino ou salmo usado por nosso Salvador nessa santa refeição.
Assim, fica evidente que a ação de graças e o louvor ao Senhor na Mesa do Senhor não diferem daqueles que são prestados a Ele em outras solenidades. Pois, se houvesse algo especial a ser observado — seja em relação ao hino em si ou à maneira de cantá-lo —, é razoável supor que teríamos algum registro disso. Afinal, quando Paulo afirma solenemente que entregou à Igreja aquilo que também recebeu do Senhor, ele detalha os aspectos essenciais desse serviço, sem qualquer menção específica a um canto litúrgico.
O próximo exemplo de canto de salmos por muitas vozes é o de Atos 16.25: “E, à meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores.” No entanto, essa passagem se esclarece rapidamente, pois ninguém imagina que ambos oravam em voz audível ao mesmo tempo, mas sim alternadamente, ou então um orava enquanto o outro concordava silenciosamente com a súplica. Sendo assim, há a mesma razão para crer que eles cantavam louvores a Deus da mesma maneira. O próprio texto nos permite entender dessa forma, tanto em relação à oração quanto ao canto.
Além disso, se por “cantar” entendermos uma melodia elaborada e harmônica (como alguns sustentam que só há canto verdadeiro com tal característica), então, digo que o texto grego não apoia essa interpretação. A tradução mais precisa é orantes laudebant — ou seja, “eles oravam e louvavam”. Os tradutores rhemistas também verteram o trecho como “orando, louvaram a Deus”.
Quanto ao conteúdo dessas orações e louvores, quem poderia duvidar de que eram fruto dos dons espirituais com os quais Deus os havia ricamente agraciado? Sendo assim, não poderiam ambos pronunciar exatamente as mesmas palavras sem um milagre. E se falaram de maneira variada ao mesmo tempo, a confusão teria sido ainda maior. Portanto, a conclusão mais razoável é que falaram alternadamente, e não ambos simultaneamente.
Alguns recorrem a 1 Coríntios 14.15-16 para justificar o canto em muitas vozes: “O que farei então? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento. De outra forma, quando abençoares com o espírito, como aquele que ocupa o lugar dos iletrados dirá ‘Amém’ à tua ação de graças?”
No entanto, essa passagem está longe de justificar o canto coletivo e desordenado em muitas vozes, como ocorre em assembleias paroquiais e outras congregações cristãs. Pelo contrário, ela o refuta completamente. Aqui, o apóstolo Paulo deixa claro que a voz que ora ou canta deve ser compreensível para quem ouve, assim como ocorre na oração. Dessa forma, os demais podem ser edificados e dizer “Amém” ao que é expresso em louvor ou súplica.
Isso sustenta claramente duas verdades:
- Tanto a oração quanto o canto na igreja devem ser conduzidos por pessoas dotadas espiritualmente, e não apenas por habilidade musical.
- Deve haver entendimento, pois o propósito é edificar os ouvintes. Como Paulo explica, “para que com a minha voz eu possa edificar os outros”, ou seja, para que a oração e o canto sejam inteligíveis para todos.
Mas como isso pode acontecer quando as vozes se misturam indiscriminadamente, seja de homens ou mulheres, em um cântico desordenado? Se ninguém consegue se destacar do restante, ninguém pode ser edificado pelo que é dito. Na verdade, em meio a tanto ruído, é difícil até mesmo que alguém edifique a si próprio. A música pode até ser agradável aos ouvidos, mas, sem clareza, não há benefício real para o entendimento. Muito mais frutífero seria se todos atentassem para a voz de um único ministro, que, pelo dom do Espírito de Deus, conduzisse os louvores com alegria e edificação.
Já vimos quão pouco esses dois textos, Efésios 5.16 e Colossenses 3.19, sustentam o costume adotado por muitos de cantar os Salmos de Davi, ou composições próprias, em um coro misto de vozes. De fato, essa prática não encontra qualquer exemplo entre as Igrejas Primitivas de Cristo. Pelo contrário, ela é completamente estranha à sinceridade e simplicidade desse santo serviço, sem que se possa apresentar qualquer razão convincente para justificá-la.
Sem mencionar o costume generalizado de cantar Salmos nas assembleias paroquiais, consideremos ainda a prática daqueles que se julgam mais avançados por comporem seus próprios hinos e os divulgarem para que outros os cantem junto com eles. No entanto, a Sagrada Escritura nada diz sobre isso. Nenhum dos apóstolos seguiu essa prática, conforme lemos nas Escrituras. Além disso, não há razão para que os versos de qualquer homem sejam introduzidos na Igreja como parte do serviço divino, nem para que todos fiquem obrigados às palavras, métricas e melodias de um único indivíduo em uma ordenança tão solene.
Na verdade, isso parece ainda menos apropriado do que a ideia de nos prendermos aos Salmos contidos na Escritura. E, mesmo assim, a Palavra de Deus não nos impõe qualquer obrigação de seguir exatamente as palavras e métricas usadas pelos santos escritores bíblicos, da mesma forma que não somos obrigados a repetir as mesmas orações registradas na Escritura. Ambos nos foram dados para instrução nesses deveres, mas não para nos limitar ou impedir a liberdade de expansão na oração e no louvor, conforme a assistência do Espírito de Deus. Pois é Ele quem capacita todos os que pertencem a Cristo a realizarem essas coisas de acordo com a vontade divina.
Certamente, esse novo método de canto, no qual as palavras são colocadas na boca dos homens por um leitor, abre caminho para a introdução das formas fixas de oração. E, de fato, não há razão que justifique uma diferença essencial entre esses dois casos.
Acaso não temos visto que, onde essas formalidades prevaleceram, o espírito de oração e louvor foi grandemente retirado? Devemos, então, rejeitar esse costume apenas para, logo em seguida, adotar algo semelhante – ou até mesmo algo ainda menos justificável? Em vez disso, devemos aprender com os erros e vaidades alheias, evitando cair nas mesmas armadilhas.
Isso nos conduz à próxima proposição.
Christianismus primitivus, Thomas Grantham, 1678. Cap 7.2, THE SECOND PART Of the second TREATISE.