O problema da Lei na CFB 1689 Cap 6.1

Vejamos como as traduções tratam o capítulo Sobre a Queda do Homem:

Versão Editora Fiel, 1991:

“Deus criou o homem justo e perfeito, e lhe deu uma lei justa, que lhe seria para a vida, se a guardasse, ou para a morte, se a desobedecesse. Mesmo assim, o homem não manteve por muito tempo a sua honra.”.

Versão Editora EC

“Deus criou homem justo e perfeito, e lhe deu uma lei justa, que seria para a vida se ele a tivesse guardado, ou para a morte, se a desobedecesse. Porém o homem não manteve por muito tempo a sua honra”.

Vejamos agora uma outra versão:

“Embora Deus tenha criado o Homem justo e perfeito e o dado uma lei justa que teria sido para vida, se ele a tivesse guardado, e, uma ameaça de morte por violação da lei, ainda assim, ele não permaneceu por muito tempo nesta honra.” –tradução minha

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Notemos que a Confissão de Fé não afirma que a Lei Moral é para a morte ou vida, mas que Deus deu uma lei justa, que, se obedecida, daria direito ou a promessa de vida ou a promessa de morte. Em outras palavras, Deus deu uma Lei que foi adornada com recompensas e ameaças, ou, nas palavras de Cox: “Restipulation”.  (Segundo The Oxford English Dictionary, o termo equivalente em inglês, “restipulation,” significa prometer ou se comprometer com algo em troca de alguma coisa.)

De acordo com o Capítulo 19, existem dois tipos de Leis: Moral e a Positiva (cerimoniais).

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A lei moral é uma lei de obediência universal escrita no coração de todos os indivíduos. Todas as criaturas devem obediência perpétua a essa lei moral por causa do direito de Criação de Deus. Ela é chamada de uma “regra perfeita de justiça”. Esta lei moral continua sendo uma regra de perfeita justiça, tanto para eleitos quanto para os preteridos.

Lei Moral, portanto, não pode dar a Vida nem a Morte.

Lucas 17:9-10 Porventura, terá de agradecer ao servo porque este fez o que lhe havia ordenado? (10) Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer.

O Capítulo 19 esclarece que a promessa de vida e morte se refere ao Preceito Particular (Lei Positiva). Ainda no capítulo 6, no é dito que ao comer do fruto proibido, Adão pecou contra duas Leis: 1) “Lei da criação” (note como nos é escrito Law e não law) e 2) o mandamento dado a eles. Isso porque toda a Lei Positiva (law) é construída sobre a Lei Moral (Law).

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De acordo com os escritos dos pais batistas, as leis positivas são ornamentos cerimoniais temporários para as leis morais naturais e eternas. Coxe, sobre a lei positiva, disse:

Agradou à soberana Majestade Celeste acrescentar a essa lei eterna um preceito cerimonial no qual ele ordenou que o homem não comesse do fruto de uma árvore no meio do jardim do Éden. Essa árvore é chamada de árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2:16, 17; 3:3). O comer desse fruto não era algo mau em si mesmo, mas assim se fez pela proibição divina. Então era necessário que a vontade de Deus no que diz respeito a isso fosse expressamente mostrada e declarada ao homem. Doutra maneira, pela luz da natureza ele não teria sido mais instruído a se abster do fruto dessa árvore do que qualquer outra no jardim; de fato, ele não estaria sob nenhuma obrigação de dever quanto a isso. Mas uma vez que o mandamento lhe foi dado, essa lei cerimonial teve seus fundamentos lançados na lei da natureza. Pois é um ditame infalível “que a coisa mais reta e racional é que o homem obedeça a Deus, e que a vontade da criatura esteja sempre sujeita à vontade do Criador.” Por isso o coração de um homem reto não pode senão aproximar-se e submeter-se à vontade de Deus por quaisquer que sejam os meios feitos conhecidos por ele. Não pode haver transgressão de um preceito cerimonial sem a violação daquela lei eterna que está escrita em seu coração.

As leis positivas variam conforme a história da redenção varia. No teatro divino da salvação, o ornamento do cenário não é fixo. Ele muda conforme o contexto muda. Thomas Patient, quando discutindo sobre a existência de leis positivas antes da existência da nação Israelita, disse:

Embora não saibamos por qual regra Caim e Abel ofereceram sacrifícios, certo é que eles a receberam de Deus. De outra forma, como Abel poderia ter realizado um culto aceitável, se não houvesse fundamento para tal? Abel teve fé (Hb.11:4); daí concluímos que havia algo que regulasse o culto […] Em Gn.6:4-5 Deus mostra um dos motivos pelos quais Ele trouxe o dilúvio: “os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos.” Disso, devemos entender que havia alguma lei que proibia o casamento dos descendentes de Sete com os descendentes de Caim. Uma lei semelhante foi proferida por Moisés em Dt.7:2-3. […]Entendemos que estas leis foram dadas por Deus a Adão e seus filhos. Elas também foram dadas a Abraão e a Moisés, que as escreveu com alguns acréscimos. A conclusão tirada de tudo isso, é que Deus, tendo prometido que a semente da mulher viria encarnada, instituiu a forma de culto [e algumas outras regras] que valeriam para toda a descendência da qual viria o Messias.

Enfim, voltemo-nos às traduções da Confissão de Fé. Não quero dizer que exista problemas que invalidam por completo a Confissão de Fé Batista de 1689 (em português). No caso das traduções acima, o perigo gira em torno de se afirmar que a Lei Moral, propriamente dita, pode dar vida ou maldição. E, a meu ver, este é um dos graves erros do movimento Teonomista. Não podemos associar a “benção e maldição” à Lei Moral, mas aos Pactos – que se caracterizam pelas leis positivas.

Diante disso, voltemo-nos aos originais em casos de controvérsias rsrsrsr..

2 comentários sobre “O problema da Lei na CFB 1689 Cap 6.1

  1. Olá, Renan!

    Estou aqui tentando entender melhor seu insight e tenho algumas dúvidas.

    Ao chamar de “lei”, em VI, 1, aquilo que chamou de “preceito particular”, em XIX, 1, a confissão coloca uma ambiguidade sobre si mesma. Como você acha que sua tradução resolve esse problema? Afinal, a “lei”, em VI,1, realmente regulava vida e morte, e não apenas “vida”, por um lado, e “ameaça de morte”, por outro. Do contrário, como Adão teria morrido?

    Além disso, se a lei moral não pode “dar Morte”, como podemos compreender o status espiritual dos pagãos debaixo da economia Mosaica? Qual é o fundamento da acusação e condenação daquele que não conhece a Lei positiva? Não podemos entender, a partir de Rm 1:18-21; 32, que a lei moral natural lhes é para morte?

    Obrigado!

    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

    • Graça e Paz irmão Pedro Issa,

      Decidi iniciar com suas colocações e, em seguida, responde-las.

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      Questão 1 – Ao chamar de “lei”, em VI, 1, aquilo que chamou de “preceito particular”, em XIX, 1, a confissão coloca uma ambiguidade sobre si mesma.
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      Resposta 1 – Eu não vejo ambiguidade neste ponto. A confissão no Capítulo 6 trata da lei (particular) e da Lei (universal). A lei particular de não comer do fruto proibido é erguida sob os alicerces da Lei Universal, então, quando se quebra a lei particular, a lei universal é quebrada. A própria confissão, no capítulo 6, afirma que Adão quebrou a Lei da criação (Universal) e o mandamento (particular). Ela usa as palavras Law e law para diferenciá-las.

      No capítulo 19, por outro lado, tanto a promessa de vida quanto a de morte estão para a lei particular, não para a lei de obediência universal. Essa lei particular (que está sob a lei universal) é o que caracteriza o Pacto. Em outras palavras, o Pacto é posterior às leis universais e dependente das leis particulares. Sem a lei particular, não haveria o Pacto de Obras.

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      Questão 2 – Como você acha que sua tradução resolve esse problema? Afinal, a “lei”, em VI,1, realmente regulava vida e morte, e não apenas “vida”, por um lado, e “ameaça de morte”, por outro. Do contrário, como Adão teria morrido?
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      Resposta 2 – Eu não entendi muito bem seu questionamento. Se estou certo, você entendeu que eu meu posicionamento diz respeito apenas ao direito a vida, no que se refere a lei moral. É isso mesmo? Se sim, creio que eu não tenha sido claro em minha argumentação. Veja, por “lei”, me refiro a lei particular.

      Notemos que a Confissão de Fé não afirma que a Lei Moral é para a morte ou vida, mas que Deus deu uma lei [aqui me refiro a lei particular “não coma do fruto proibido”] justa, que, se obedecida, daria direito: a promessa de vida ou a promessa de morte.

      Se Adão errasse contra a lei moral, sem a lei particular, como ele seria condenado se não havia promessa de morte para a lei moral natural? E, se havia promessa de morte ou vida para a lei natural moral, qual a razão da lei particular?

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      Questão 3 – Além disso, se a lei moral não pode “dar Morte”, como podemos compreender o status espiritual dos pagãos debaixo da economia Mosaica? Qual é o fundamento da acusação e condenação daquele que não conhece a Lei positiva?
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      Resposta 3 – Aqui volto-me para o conceito de representatividade. Eles estão “mortos em pecados e delitos”, mas isso não se refere apenas aos pecados efetivos/atuais, pois esses pecados, creio eu, são punições pelo pecado original. Ser “morto em pecado e delito” é ser morto em Adão. Ele não precisa conhecer a lei positiva de Adão para ser acusado, caso contrário, somente aqueles que tiveram acesso a Revelação Especial poderiam ser condenados, o que negamos. Os pagãos não estavam sob o Pacto Mosaíco (que também não dava nem vida ou morte), mas estavam sob o Pacto de Obras (quebrado por Adão) a semelhança de quaisquer outros ímpios.

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      Questão 4 – Não podemos entender, a partir de Rm 1:18-21; 32, que a lei moral natural lhes é para morte?
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      Resposta 4 – Entendo que neste texto a os pecados efetivos/atuais são como que agravantes e punições pelo próprio pecado original. Agostinho diz: “e assim acontece, que toda alma desordenada seja castigada de si mesma” (p.61, 1.12, Confissões, ed. Nova Fronteira). Se recebo punição, logo, implica que sou culpado de algo. Mas, que algo é esse? O pecado original. A base para a condenação (morte) está para o pecado original (Rm 5:12; Sl 51.5; Jó 14.4; Ef 2.3; Jo 3.5,6), não para os pecados efetivos/atuais. Como diz Turretini: “O pecado atual […] procedente do pecado original como o efeito da sua causa, um rio da fonte e o ato consequente do primeiro” (vol 1, p798).

      Espero que eu tenha consiga respondê-lo,
      Em Cristo,
      Renan

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