Igreja vs Estado no pensamento de Roger Williams – Parte III

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Enfim, voltamos 🙂

Se você não leu os posts anteriores aqui estão os links: Parte I e Parte II

O Separatismo

Todos concordavam que o verdadeiro cristão não deveria desertar da igreja de Cristo. Ambos, protestantes e romanistas aceitavam esse ponto. A questão, entretanto, era se um cristão poderia e deveria se afastar de uma comunidade que falsamente se denominava igreja. O trono do Anticristo estava em Roma, logo, a Igreja Católica Romana era igreja anticristã. Assim, entre 1553 a 1558, sob o governo de Maria Tudor, a igreja da Inglaterra que se assumiu Igreja de Roma, por consequência lógica, se tornou anticristã.  Este era um dos pensamentos distintos dos puritanos separatistas.

Além da veracidade da igreja da Inglaterra, o conceito de igreja nacional também fora atacado pelos separatistas. Embora Israel tivesse sido uma igreja nacional, a igreja de Jesus não poderia ser maior que uma congregação. Igreja local era o único tipo de igreja reconhecido por Cristo e seus apóstolos na Nova Aliança. Jesus e os apóstolos nunca afirmaram a existência de igrejas nacionais. Com base nisso, os separatistas afirmavam que toda hierarquia nacional de bispos e arque-bispos não passava de fantasia e invenção do Anticristo. As igrejas eram nada mais do que simples assembleias de santos visíveis. Essas assembleias eram formadas por um acordo pactual e voluntário entre os santos de uma determinada localidade.

Desse modo, os separatistas acreditavam que o erro catastrófico de uma igreja local era permitir a presença de membros promíscuos. A igreja deveria ser formada apenas de santos justificados, não de ímpios escravizados pelo pecado. O exercício da disciplina eclesiástica, portanto, era essencial no conceito eclesiástico separatista. A disciplina tornou-se marca de uma igreja verdadeira. Sem ela não era possível existir igreja visível local.

Isso, contudo, não implica dizer que a Igreja da Inglaterra era totalmente contra o processo disciplinar do seus membros, mas apenas que não estava nas mãos dos indivíduos da igreja local ou dos conselhos locais das igrejas os julgamentos. Pessoas promíscuas eram julgadas por uma corte nacional, distante da realidade local. Para os separatistas, se a igreja é um pacto solene e voluntário entre crentes regenerados, logo, o processo disciplinar deve ocorrer entre eles.

Para se juntar a uma igreja separatistas primeiro era necessário dar evidências de salvação e, em seguida, se submeter ao processo de disciplina local. Desse modo, se houvesse falhas morais de algum membro, a própria igreja aplicaria a disciplina na expectativa de encontrar evidências de arrependimento no pecador. Caso contrário, o indivíduo seria excluído da membresia e considerado pagão. Os puritanos separatistas desejam se separar do mundo caído, não somente da igreja da Inglaterra.

O sustento dos ministros também foi outra matéria de controvérsia entre separatistas e não separatistas.  Pastores separatistas não recebiam salários do estado, a semelhança dos pastores da igreja nacional; O princípio defendido por eles era de voluntariedade. As contribuições para manter os pastores eram voluntárias e os ministros livres para exercer suas próprias profissões caso a igreja local não conseguisse sustenta-los.

Ainda com relação aos ministros, para os separatistas, não poderia existir qualquer pastor sem igreja. O ministro deveria ser eleito pela congregação local, e, caso ele deixasse a igreja, seu status de ministro seria igualmente suspenso até que eleito por outra congregação.

O próximo passo lógico, portanto, era negar que a pregação da Palavra para os descrentes fosse uma característica necessária da verdadeira igreja. A principal função dos ministros era alimentar o rebanho de Cristo, os regenerados. Deixaram para o governo civil a responsabilidade de manter pregadores apropriados para não-crentes. Outros defendiam que essa era uma responsabilidade particular de todos os crentes.  O importante notar aqui é a preeminência das ovelhas de Jesus no culto público e não os “bodes”. Alguns separatistas acreditavam que a pregação poderia ser ouvida por ambos, crentes e não-crentes, mas a ceia do Senhor continuava restrita apenas aos regenerados professos.

Roger Williams e a Igreja de Boston

Quando em 1631 Roger Williams chegou a Nova Inglaterra, recebeu um convite para ser ministro na igreja de Boston. Essa igreja tinha princípios separatistas e, muito provavelmente, haviam recebido informação sobre as posições separatistas daquele eloquente pregador. Entretanto, Roger Williams rejeitou o presbiterato alegando que a igreja de Boston não era realmente separatista.

A questão surgiu porque os separatistas de Boston da Nova Inglaterra não acreditavam na falsidade da igreja nacional inglesa, mas apenas na necessidade de uma profunda reforma. Aqueles crentes partiram para a Nova Inglaterra porque viram a oportunidade de iniciar igrejas locais puras em uma nova terra, sem perseguição e sem, contudo, oferecer qualquer tipo de resistência à Igreja da Inglaterra.

Roger Williams, por outro lado, acreditava que a Igreja da Inglaterra era uma sinagoga de Satanás, portanto, qualquer contato com ela deveria ser procedido de confissão de pecado e arrependimento. A igreja de Boston deveria se declarar culpada de comunhão com uma falsa igreja e se arrepender publicamente. Para Williams, os cristão deveriam se retirar da Igreja Nacional, tanto quanto denunciá-la. Havia uma diferença substancial entre o separatismo Inglês e o separatismo encontrado em Boston. Após esse fato, Williams foi para Salém onde por um pequeno período pastoreou a igreja daquela região. Mas, perseguido pelos magistrados de Boston, fugiu novamente para Plymonth.

A partir dessa perseguição Roger Williams negou que a magistratura civil possuía autoridade coercitiva sobre a primeira tábua dos dez mandamentos.

Até o próximo post …. 🙂

 

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