Um problema neocalvinista

Ninguém põe remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo tira parte da veste, e fica maior a rotura.” – Mateus 9:16

O Pacto de Graça não é remendo do Pacto de Obras. Creio que um bom reformado, ortodoxo, aceitaria, sem êxito, tal afirmação. Mas, e se usarmos outros termos no lugar de pacto de Graça e Obras.

Eu poderia dizer: “A redenção não é remendo da criação”. Este é o ponto que desejo chegar, a saber, que o conceito de redenção neocalvinista é problemático e não é coerente com o ensino da Escritura.

Usarei as afirmações do livro “A criação Restaurada” de Albert M. Wolters para mostrar alguns equívocos que podem levar a igreja ao oposto pretendido pelos neocalvinistas.

Ao tentar combater o gnosticismo reedificado pelos movimentos legalistas, a ideia de “criação redimida” se torna tão perniciosa quanto o mal que pretende tratar. O remédio se tornou veneno mortal. Para Wolters redenção é a restauração de toda ordem criada conforme a realidade pré-lapsariana (antes da queda de Adão):

“a redenção obtida por Cristo Jesus é cósmica no sentido em que restaura toda a criação. […] redenção significa restauração – ou seja, o retorno à bondade de uma criação originalmente incólume, e não meramente a adição de algo supracriacional[…] é surpreendente que todas as palavras básicas que descrevem a salvação na Bíblia sugerem o retorno a um estado ou situação originalmente bom. ” – A criação restaurada A.M.Wolters

O problema desta afirmação é basicamente escatológico (últimas coisas). Wolters não percebe que o Éden pré-lapsariano descrito em Gênesis não era o Éden escatológico. A realidade escatológica é distinta da realidade protológica (primeiras coisas).

Primeiro; o Éden escatológico é mais amplo pois Deus ordenou ao primeiro homem expandir o jardim. Ele também seria mais populoso; as ordens culturais seriam ampliadas. A humanidade experimentaria, no Éden escatológico, relações que no Éden protológico não existia; a paternidade, maternidade, fraternidade e vida eterna. Porém, Segundo; Adão não cumpriu a sua obrigação e, portanto, não pôde desfrutar as realidades escatológicas do Éden.

Se a redenção significa a restauração do Éden protológico, falta-nos ainda o Éden escatológico e, para complicar um pouco mais, ele dependeria dos agentes humanos e não de Cristo. Todavia, não são os representados no pacto que devem obter os direitos escatológicos, mas o representante federal. Portanto, se existe um pacto de graça, como acredito que exista (e não é meu propósito provar essa verdade aqui), então, Cristo é o responsável por adquirir as bênçãos escatológicas. A pergunta que nos resta é: “As bênçãos escatológicas que Cristo obteve são as mesmas que Adão obteria?”. Eu respondo que não. Cristo obteve coisas mais abundantes (trataremos disso mais tarde).

Albert Wolters continua definindo a redenção neo-calvinista, porém, em termos de liberdade:

“Alguém paga o resgate em favor do cativo e, desse modo, ‘compra de volta’ a sua liberdade original. O objetivo da redenção é libertar o prisioneiro do cativeiro, devolvê-lo à liberdade de que uma vez gozou […] voltar para um estado original

O autor insiste no mesmo erro. A liberdade obtida na cruz é a liberdade escatológica que, em parte, já se iniciou. Adão, antes do pecado tinha uma liberdade definida do seguinte modo: “capaz de pecar e capaz de não pecar”. Após a queda, sua liberdade foi redefinida para: “capaz de pecar e incapaz de não pecar”. A redenção da igreja visível ocorre em duas etapas que redefinem a liberdade. Enquanto naquele tempo conhecido por “já, mas ainda não” a liberdade se defini por: “capaz de pecar e capaz de não pecar”, na glorificação a liberdade será definida por: “incapaz de pecar e capaz de não pecar”.  Se Wolters está certo, a redenção significa que o homem nunca atingirá o status de “incapaz de pecar e capaz de não pecar”, logo, haverá possibilidade de uma nova queda após a consumação de todas as coisas.

A fim de provar a tese, neocalvinistas, via de regra, usam Romanos 12.2. Albert Walters escreve:

“Paulo usa o prefixo comparativo ana- para forjar a palavra grega anakainosis quando fala da ‘renovação da vossa mente’. O que uma vez foi novo, mas se tornou gasto pelo uso, é agora ‘re-novado’, trazido de volta à qualidade antiga.”

Ele confunde o processo de santificação com o processo de redenção. Para Wolters, redenção é santificação. E, se ele está certo, já não resta mais a justificação pela fé somente. Sabemos, contudo, que a santificação é um processo na vida dos justificados (aqueles justificados pela fé somente).

A “renovação” não é “volta à qualidade pre-lapsariana“. Paulo usa a figura de linguagem para explicar que, depois de justificado, o infortúnio chamado pecado deve ser constantemente combatido. Somos novas criaturas, mas o pecado suja nossa vida. Com a renovação (santificação) da nossa mente, pecados de orgulho, arrogância (etc) terão o poder escravizador amputado. Ainda que surjam em nossa mente, logo serão derrotados. Isso fica claro diante nas palavras do apóstolo:

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. (2) E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (3) Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da que Deus repartiu a cada um. – Romanos 12:1-3”

Ao progredir sua argumentação, Wolters afirma:

“Num sentido muito importante, essa restauração significa que a salvação não traz nada de novo. A redenção não é uma questão de acrescentar uma dimensão sobrenatural ou espiritual à vida humana; antes, é uma questão de dar nova vida e vitalidade ao que já estava lá o tempo todo. […] a restauração é o foco exclusivo da redenção. Na realidade, a única coisa que a redenção acrescenta que não está incluída na criação é o remédio para o pecado, o qual é trazido exclusivamente para o propósito de recuperar uma criação sem pecado. Se a salvação não traz mais do que a criação, também não traz menos”.

A remissão de pecadores, segundo este neocalvinismo, é meio para um fim, a restauração do Éden pré-lapsariano. Em outras palavras, somos mediadores de uma criação redimida. Esta é uma inversão clara da obra de criação. O homem não foi estabelecido por causa da criação, mas a criação por causa do homem. O ápice da criação foi o homem, por isso ele foi criado após todas as coisas, de modo peculiar, segunda “a imagem e semelhança” de Deus.

Depois disso, há o texto de Colossenses 1:20. Segundo Albert W.:

“’reconciliasse consigo mesmo todas as coisas’, escreve Paulo (Cl 1:20) […] pois ele não tinha apenas os seres humanos em mente[…] ‘todas as coisas’ são arrastadas para o motim da raça humana e sua inimizade para com Deus”

Acredito que o equívoco dessa interpretação de Cl 1:20 é considerar o termo “todas as coisas” a ordem criada do verso 16. “Todas as coisas” não pode se referir a ordem criada, caso contrário, os anjos seriam também redimidos. Ora, os anjos que guardaram seu status diante de Deus não necessitam de nenhum tipo de redenção. Turretini bem explica:

“Todos, deveras, concordam que não se pode dizer que foram eleitos em Cristo, o Redentor, porque, onde não houve pecado, não há lugar para a redenção”.

De modo resumido, pois meu objetivo não é apresentar uma longa exegese, dividimos o texto em duas partes. 1) versos 15-17 o apóstolo descreve Cristo como Senhor supremo sobre a criação. Ou ainda, sobre toda ordem criada, Jesus é Deus. 2) versos 18-20, Paulo se refere ao corpo místico de Cristo que é sua igreja militante e triunfante. A expressão “todas as coisas” diz respeito a igreja militante (na terra) e a igreja triunfante (no céu). Ele é Senhor supremo tanto da criação (15-17) quanto da nova criação (18-20).

Enfim, o neocalvinismo, nos aspectos semelhantes a estes defendidos por Wolters, é ferramenta para secularização da igreja! O envolvimento cultural não pode ser entendido nos termos ensinado por Wolters. A função do regenerado, nesse esquema neocalvinista, é de mediação. O homem é o mediador que promove a redenção com envolvimento cultural e não com a proclamação verbal do evangelho. Wolters prega um Pacto de Graça que remenda o Pacto de Obras.

Eu afirmo que o envolvimento cultural preserva a ordem criada, mas, não restaura a criação e nem faz uma nova criação. Cristo governa o Reino comum dos homens através de governos e instituições a fim de preservar elementos pré (i.e. casamento) e pós (i. e. magistratura civil) queda.

Aqueles que pertencem ao Reino dos céus são chamados para testemunhar a fé diante dos homens mas isso não é visto como expansão do Reino em que Cristo é o mediador. O interno deve ser testemunhado por atos externos. No reino comum temporal, nossas ações testemunharão a realidade interna do reino espiritual (e que é visível, em parte, na igreja – mas, não desejo entrar nestes detalhes agora). Repito, o meu e o seu envolvimento cultural testemunham a redenção de Cristo operada em nós. E, desse modo, justificados pela fé diante de Deus, as obras justificarão nossa fé diante dos homens.

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