
Confesso: fiz uma leitura equivocada de John Bunyan em “The Doctrine of Law and Grace Unfolded” (publicado em 1708). Afirmei que “John Bunyan considerava o Pacto do Sinai como a formalização do Pacto de Obras feito com Adão”. Essa afirmativa não procede.
Bunyan considerou, na verdade, a natureza do Pacto no Éden mesma natureza do Pacto do Sinai. Ambos são pactos de obras, entretanto, o Pacto do Sinai é um pacto quebrado, portanto, não pode existir um representante federal que cumpra e obtenha o direito a vida. Uma vez quebrado, a promessa imutável, deve ser cumprida, “Faça e viva, não faça e morra”. Resta, portanto, a morte. Em outras palavras, o pacto de obras é o “ministério da morte”.
Desconfiei da minha primeira leitura após compreender o contexto histórico da controvérsia pactual durante os dias de Nehemiah Cox no livro “From Shadow to Substance”, de Samuel Renihan. Em 14 de maio de 1669, em Bredford, Coxe se juntou à Igreja pastoreada por John Bunyan. Em 1671 foi admitido como professor e em 1681 publicou “A discourse of the Covenant”.
Diferente do que imaginei a princípio, Bunyan e Coxe não se mantiveram distantes nesta matéria. A diferença foi no objetivo das obras. Coxe se propós sistematizar a doutrina do pacto diante de questionamentos que refletiam na prática do batismo e na eclesiologia batista. Por outro lado, Bunyan se preocupou com as questões práticas referente à justificação, santificação dos crentes, certeza da salvação e conhecimento Evangélico. No prefácio do seu livro – ignorado por mim na primeira leitura – Bunyan diz:
“And the reason is this: because so long as people are ignorant of the nature of the law, and of their being under it—that is, under the curse and condemning power of it, by reason of their sin against it—so long they will be careless, and negligent as to the inquiring after the true knowledge of the Gospel. […]Again; that man that doth not know the nature of the law, that man doth not know the nature of sin; and that man that knoweth not the nature of sin, will not regard to know the nature of a Saviour; this is proved (John 8:31-36). These people were professors, and yet did not know the truth—the Gospel; and the reason was, because they did not know themselves, and so not the law”
Posto isso, vamos para o desenvolvimento articulado pelo autor de “O Peregrino”. Bunyan diz:
“That there are some that are under the law, or under the covenant of works […]. That is, they that are under the law are under the curse; for mark, they that are under the covenant of grace are not under the curse. Now, there are but two covenants […]”
A partir de Gálatas 4, afirmou que tanto Êxodo 24; 34 e Deuteronômio 10, referem-se ao pacto de obras:
“The Covenant of Works or the law, here spoken of, is the law delivered upon Mount Sinai to Moises, in two tables of stone, in ten particular branches or heads; for this see Galatians 4. […] As for you that desire to be under the law, I will show you the mystery of Abraham’s two sons, which he had by Hagar and Sarah; these two do signify the two covenants; the one named hagar signifies Mount Sinai, where the law was delivered to Moses on two tables of stone (Ex 24.12; 34.1; Dt 10.1)”
Bunyan identifica a mesma essência entre o Pacto no Sinai e o Pacto no Éden:
“But, though this law was delivered to Moses from the hands of angels in two tables of stones, on Mount Sinai, yet this was not the first appearing of this law to man; but even this in substance, though possibly not so openly, was given to the first man, Adam, in the Garden of Eden, in these words:’And the LORD God commanded the man, saying, of every tree of the garden thou shalt not eat of it; for in the day that thou eatst thereof thou shalt surely die ‘ (Gn 2.16-17)”
Os dez mandamentos foram, não tão abertamente como no Sinai, entregues ao primeiro homem. Antes de progredir na argumentação, Bunyan descreveu como os dez mandamentos foram quebrados antes do monte Sinai, não apenas em Adão mas sua descendência. Em seguida, resume a questão a dois argumentos: Primeiro, se o Pacto no Éden é o pacto que levou à morte, “Você seguramente morrerá”, e, se o Sinai também leva a morte, logo, possuem a mesma substância. Utilizando 2Co 3.7, Bunyan diz:
“Consider the two covenants are thus called in scripture, the one the administration of death, and the other the administration of life […] but that delivered on Sinai is called the administration of death”
Segundo, a substancia pactual é identificada na expressão “faça isso e viva; não faça isso e morra”. Neste ponto, Romanos 10.5 é utilizado:
“And so is this on Sinai, as is evident when he saith, ‘the man which doeth those things shall live by them’ – Rm 10.5. And in case they break them, even any of them, it saith, ‘Cursed is every one that continueth not in all things which are written in the (whole) book of the law to do them’ – Gl 3.10”
Mas, no pacto de Obras existe a clausura de “faça e viva”, portanto, poderia o homem receber vida caso ele se arrependesse e confiasse na promessa de vida desse pacto? Bunyan responde que o pacto, uma vez quebrado, mesmo que no caso de um suposto arrependimento, não poderia oferecer vida porque a natureza da justiça de Deus é imutável e santíssima, logo, a morte do pecador deve acontecer. Além disso, o pacto de morte, ou ministração da morte, não permite qualquer arrependimento para a vida eterna, diz ele:
“I told you before, that the covenant, once broken, will execute upon the offender that which it doth threaten to lay upon him; and as for your supposing that your repenting and promising to do so no more may help well, and put you in a condition to attain the mercy of God by the law, these thoughts do flow from gross ignorance both of the nature of sinm and also of the nature of the justice of God […] The law, as it is a Covenant of Works, doth not allow of any repentance unto life to those the live and die under it. They brake My covenant ‘and I regarded them not, saith Lord’- Hb 8.9”
Mas qual a diferença entre o pacto de obras promulgado no Éden e sua ratificação sobre o monte Sinai? Bunyan afirma que Adão nos deixou um pacto quebrado. A esse pacto resta somente a ministração da morte, ou, a satisfação da justiça. Estamos debaixo da morte ou vida, das obras ou da graça e o mesmo era válido para Israel:
“As they come from Adam, they are in a sad condition, because he left them a broken covenant […] Oh! this was the treasure that Adam left to his posterity; it was a bbroken covenant, insomuch that death reigned over all his children, and doth still to this day, as they come from him, both natural and eternal death (Rm 5) […] He did not onle leave them a broken covenant, but also made them himseld sinners against it […] Rm 5.19”
Para Bunyan, nossa condenação se baseia no pacto de obras feito com Adão. Esse pacto foi relembrado de modo mais claro à nação de Israel. A lei (ministração da morte, pacto de obras) não poderia dar vida natural nem espiritual para os filhos de Abraão. O Pacto Mosaico foi realizado para tornar mais evidente a lei e os pecados dos homens. Essa lei, foi a mesma lei inserida no Edén. A substância dos Dez Mandamentos entregue no jardim, foi a mesma entregue no Sinai.
Com Moisés, portanto, houve a expansão do pacto de obras quebrado. Isso está de acordo com o ensino de Coxe quando diz que pactos após a queda são pactos em si mesmos, ao mesmo tempo que expandem/clareiam as clausuras do Pacto de Obras. Em outras palavras, possuem a essência do Pacto de Obras, mas, após a queda, são usado de modo subserviente ao pacto de graça. Portanto, o pacto no Monte Sinai não era, de modo algum, administração do Pacto de Vida Eterna, mas, apenas um aio para o verdadeiro Pacto que poderia dar vida em abundância e prometido em Gênesis 3.15, 12.3 .
Bunyan, assim como toso os Batistas do século 17 afirmou que a lei não poderia dar vida, que o Pacto no Sinai refletia a substância do Pacto no Éden, que o Pacto no Sinai era subserviente ao Pacto de Graça e que o Pacto de Graça existiu no Antigo Testamento em caráter de Promessa.