Nome da Obra: First Freedom: The Beginning and End of Religious Liberty
Editores: Json G. Duesing, Thomas White e Malcolm B. Yarnell III
Capítulo 1
Trata da liberdade religiosa e a exclusividade da salvação em Jesus Cristo. A pergunta principal do capítulo é: “A liberdade religiosa anula a posição que defende exclusividade da salvação por meio da fé em Jesus?”. O argumento é simples, não se pode usar a coerção para propagação do evangelho porque o confronto é argumentativo não coercitivo. Esta posição foi o cerne da crença anabatista. A reforma radical dizia que, em matéria de consciência religiosa, Jesus tomou a posição contra o uso de força para o convencimento ou prática religiosa. Em outras palavras, “o discernimento é responsabilidade da igreja, mas o julgamento pertence somente a Deus”. Isso não significa que o autor é um pacifista, durante a argumentação, ele nega mais de uma vez tal posição.
Capítulo 2
O autor elabora o histórico da defesa da liberdade religiosa pelos Anabatista e Batistas Ingleses. O fundamento da liberdade religiosa contemporânea tem raízes anabatistas (alemães de 1521) e batista (ingleses). Existiram muitos argumentos em comum entre os grupos, entretanto, o autor não considera qualquer ligação entre os anabatistas e batistas inglêses, apenas semelhanças no entendimento doutrinário de ambos. Os pontos em comum são: 1) que o Senhor possui dois reinos, comum e o espiritual; 2) o governo civil não possui autoridade sobre a alma; 3) a disciplina espiritual é tarefa exclusiva da igreja; 4) uma fé voluntária não pode ser coagida; 5) matar um herege coloca fim à oportunidade evangelística; 6) a liberdade religiosa deve ser estendida a todos os grupos religiosos. Segundo o autor, verdadeiros cristãos serão perseguidos, não obstante, jamais poderão agir como perseguidores. Enquanto os anabatistas consideravam o governo civil o reino mundano, e, desse modo, era impossível que algum crente se envolvesse com a magistratura, os batistas apoiavam às guerras justas ou a admissão de magistrados civis no corpo visível de Cristo – a igreja local. Os batistas limitavam à membresia tendo em mente o direito a liberdade de consciência religiosa. Em outras palavras, a teologia dos dois reinos dos grupos era distinta.
Capítulo 3
Mostra a teologia Política dos primeiros americanos. A relação entre igreja e estado seguiu duas tradições: 1) a tradição da Virgínia; 3) a tradição da Carolina do Sul. O primeiro seguiu argumentos quakers, o segundo, a tradição puritana. O primeiro enfatizava a liberdade individual e a separação entre igreja e estado; reivindicava as posições de Roger Williams e as cartas de Thomas Jefferson. O segundo enfatizava a providência divina, constitucionalismo, ordem social e liberdade religiosa moderada; resguardava um mínimo de envolvimento político, advogavam o aprendizado clássico e a participação no governo colonial. O autor se propôs discutir as posições teológicas de três importantes pastores da Carolina do Sul, entretanto, a meu ver, o seu resumo ocultou fatos e argumentos teológicos importantes. Nada foi dito, por exemplo, das várias posições com relação ao pacto com Noé que houve na tradição puritana, se e como influenciaram a posição política destes líderes.
Capítulo 4
O autor explica como a liberdade religiosa foi suplantada no contexto pós-moderno através da relativização da moral. Ele também enumera 8 vertentes das propostas pós-modernistas: 1) Construtivismo social, 2) Determinismo cultural, 3) Rejeição da identidade individual (identidade é coletivista), 4) Rejeição do humanismo (valores que enfatizam a criatividade, autonomia e prioridade dos seres humanos ), 5) Negação do transcendente, 6) Reducionismo do poder (todas as instituições e relações humanas são expressões de um único poder), 7) Rejeição da razão, 8) Crítica revolucionária da ordem existente. A partir disso, a liberdade religiosa é apenas um valor relativo. Duke, o autor, aponta para a superficialidade das provas para a defesa da liberdade religiosa a partir da lei natural e social. A meu ver, suas ponderações foram curtas demais e os argumentos enfraquecidos. Ele apresenta, com equívoco, a lei natural derivada exclusivamente da filosofia de John Locke. Por último, o autor apresenta argumentos teológicos que partem do entendimento arminiano das Escrituras.
Capítulo 5
Este capítulo é uma defesa pela liberdade religiosa com argumentos extraídos dos evangelhos e ensinos diretos de Jesus. Ao término de sua análise bíblica, expõe o contexto histórico e bases argumentativas do movimento Anabatistas na Europa, mostra a relação entre liberdade religiosa e pregação evangélica, e, por fim, apresenta as bases argumentativas que surgiram na América. A influência americana foi de batistas ingleses. Para finalizar o capítulo, o autor relata quais as implicações contemporâneas da liberdade religiosa. Este capítulo me pareceu completamente deslocado.
Capítulo 6
Este capítulo analisou as mudanças contemporâneas na esfera pública, a revolução moral, e os desafios para a liberdade religiosa. O autor mostrou que o secularismo americano também foi responsável por reestruturar os argumentos da liberdade religiosa. Na esfera pública, portanto, o conceito original dos pais fundadores americanos foi minado pela revolução moral. Liberais e progressistas ganharam terreno substituindo a “liberdade religiosa” por “liberdade de adoração”. Ou seja, a prática da religião se resumiu a profissão de fé no privado e se tornou oposta a expressão pública da fé. Em outras palavras, cristãos podem se manifestar privativamente contra o casamento gay, todavia, quaisquer atos públicos são intoleráveis. Por fim, o texto expõe outra rápida análise da relação entre o argumento religioso e a ideia de lei natural de John Locke.
Capítulo 7
Neste capítulo, descreve a responsabilidade da igreja em solidificar suas bases teológicas para a liberdade religiosa. A fonte deve ser o Evangelho. O autor critica a união à falsos profetas e adeptos do neo-pentecostalismo. A união desenfreada é sério risco para as igrejas porque não se pode defender liberdade religiosa consistentemente quando a sua natureza não é derivada do evangelho genuíno. Além disso, o propósito final da igreja é a regeneração de pecadores, não uma reforma política apenas. Nem a liberdade, nem o engajamento político são incidentes para a igreja, problemas como aborto e casamento gay são conspirações satânicas. Para lutar pela liberdade religiosa, a igreja deve cultivar o amor pelo evangelho pois a luta é contra satanás e seus anjos caídos.
Capítulo 8
Albert Mohler sintetiza a relação entre liberdade religiosa e o despertar da revolução sexual no contexto americano. Para o autor, a revolução ocorrida na moralidade procura perverter o conceito de casamento. Há um novo regime moral que suplanta a liberdade religiosa pela liberdade erótica. Esta revolução moral ganhou terreno após redefinir o conceito de liberdade religiosa chamando-a de liberdade de adoração. Desse modo, a liberdade perdeu sua voz pública e foi reduzida a esfera privada. O direito mais fundamento da raça humana, portanto, se tornou a liberdade erótica. Esta perversão, para Mohler, representa o mais alto nível de secularização da cultura, em outras palavras, cultura sem Deus. Ao defender o conceito ortodoxo de casamento, o autor usa o argumento da lei natural e define a família como uma instituição pre-política. Também faz uma pequena critica àqueles que defendem a politização de todas as esferas da vida. Para Molher, o casamento é a unidade institucional mais básica da civilização, redefini-lo significaria provocar grandes distúrbios para a humanidade. Se houver a redefinição do casamento, haverá sério risco de redefinição de outros conceitos fundamentais da sociedade: paternidade, maternidade, filiação e todos os outros laços familiares.
Capítulo 9
Aborda problemas das universidades cristãs americanas. O autor apontas restrições e perigos que as escolas sofrem quando a liberdade religiosa é reprimida. Segundo o texto, as instituições perdem incentivos fiscais e reconhecimentos quando, por exemplo, se opõe a pautas LGBTs. Desse modo, falta-lhes recursos para investimentos ou campanhas na sociedade e, além disso, o número de alunos é, pela força indireta dos órgãos governamentais, drasticamente reduzido. A liberdade religiosa, portanto, tem efeitos em todas as esferas, não apenas em nossa vida eclesiástica. Ao final, o autor chama as instituições à firmeza na luta pela Liberdade Religiosa. Elas precisam mostrar clareza nas declarações de fé, missão, políticas, cosmovisão e educação espiritual dos alunos. Por fim, mostra a necessidade de recrutamento e admissão tanto de alunos quanto professores comprometidos com a centralidade de Cristo.
Capítulo 10
O último capítulo explora possíveis respostas para a pergunta: “o que a lei internacional tem a dizer sobre a inexistência da liberdade religiosa em muitas partes do mundo?”. O texto, de forma resumida, explana como funcionam as leis e tratados internacionais, como se deu a questão da liberdade religiosa ao longo da história e a relação entre liberdade religiosa e os muçulmanos. Alguns acordos para liberdade religiosa foram citados, dentre eles o decreto de Constantino, o tratado de Augsburg, o tratado de Constantinopla de 1881 e outros. Sobre a declaração universal dos direitos humanos, o autor mostra que a liberdade religiosa é protegida apenas de modo indireto, ou, no máximo, marginal. Em suma, o autor esclarece que tratados internacionais não podem solucionar problemas de liberdade religiosa em países de minoria cristã. Os tratados servem para legitimar algumas nações à benefícios internacionais, dar prestígio ou garantir possíveis ajudas humanitárias, são quase inúteis quando se trata dos problemas internos dos países.
Enfim, minha conclusão
O livro é uma coleção de ensaios e artigos. É possível ler os capítulos de forma independente porque não há conexão forte entre os assuntos. A linguagem é simples e os textos bem escritos. Quanto ao preço, alto. Eu buscava aspectos do desenvolvimento histórico e teológico da liberdade de consciência e religiosa e os três primeiros capítulos foram de grande proveito. Serviram, em parte, ao propósito. Entretanto, os editores defendem a liberdade religiosa com argumentos claramente arminianos e influenciados pelos primeiros anabatistas. A matéria no contexto dos batistas particulares (reformados calvinistas) é quase ignorada. A sessão dos problemas contemporâneos também não me agradou. Sim, se trata do contexto americano, isso eu já esperava, afinal, é um livro americano escrito por americanos para o público americano, mas os editores foram excessivos no problema da liberdade sexual; quatro capítulos para o assunto com argumentos e propostas semelhantes. Enfim, é um livro que recomendo para leigos no assunto.