Segundo o vídeo publicado pelo canal “Perguntar Não Ofende”, a relação sexual define o casamento. Será?

Repondo que: Segundo a tradição puritana, na Escritura, o casamento é um Pacto. Por Pacto não quero dizer aquele moderno contrato civil entre um homem e mulher. O contrato civil, na verdade, foi adotado pelos puritanos durante o século 17, para evitar a realização de casamentos ilícitos – bigamia, por exemplo. A utilização do documento civil reconhecia a existência do matrimônio sem a necessidade da igreja romanista. Portanto, não é o Estado – especialmente aquele de Rousseau – que autentica o Pacto, mas as testemunhas e a autoridade civil. É claro, não devemos confundir Estado com autoridade, ou, forma com substância. Lembremo-nos que no período patriarcal houve casamento.
Samuel Willard, ao falar do matrimônio como Aliança, afirma que “todas os deveres desse pacto são apontados por Deus”, a relação sexual é apenas um dos deveres conjugais (um dever necessário). Este é o motivo pelo qual nenhuma autoridade civil jamais poderá redefinir o conceito de casamento. As regras do Pacto vem de Deus. Quando um marido ou a esposa quebram as leis dessa Aliança, diz Willard, eles provocam a ira de Deus. O conceito de Pacto é muito importante para a compreensão do casamento na tradição puritana. John Owen, por exemplo, diz que o vínculo, ou seja, o acordo mútuo entre homem e mulher, “é o fundamento de todos os deveres mútuos, e, enquanto tudo continua, ninguém pode dispensar ou proibir a realização destes deveres matrimoniais”.
A relação sexual não é o fundamento que obriga o marido “amar sua esposa como Cristo amou a igreja”, mas o juramento solene e público de fidelidade ao pacto de casamento. Quando um homem e uma mulher fazem uma aliança de casamento, fazem uma “promessa de obediência às regras do casamento, sem precondições ou reservas”. Segundo Owen, “O casamento consiste em que dois se tornam “uma só carne”, Gn 2.24; Mt 19.6. Mas tal união é dissolvida em caso de adultério porque a adúltera se torna uma só carne com o adúltero, 1Co 6.16, e nenhuma comunhão em carne com seu marido resta, logo, está absolutamente quebrado o vínculo ou o pacto de casamento”. Mas “uma só carne” não se refere somente a relação sexual? Não, isto se estende a pessoa de modo integral; corpo, espírito, emoções, planos. Em outras palavras, a relação sexual é a expressão máxima da união conjugal. Os puritanos consideravam a relação sexual como o sinal do pacto de casamento. Portanto, o fundamento do matrimônio não é o sexo, mas aquilo que dá direito ao sexo, a saber, o Pacto.