Vejo que alguns irmãos batistas estão confusos com relação a doutrina da Aliança. Neste curto post,
- Saliento algumas informações com respeito a posição da CFB89,
- Descrevo as razões pelas quais os primeiros batistas assumiram o framework da CFW,
- Coloco uma razão pela qual batistas atuais são inconsistentes e
- Faço um pequeno conselho aos novos adeptos da teologia reformada e pactual
Não pretendo fazer uma argumentação exegética, apenas histórica. Se você não concorda com a Teologia da Aliança, este post não é para você. Também não pretendo justificar exegeticamente estas posições. Vá até as obras dos homens citados, lá você encontrará material muito mais amplo e melhor que o meu. Posto isto, vamos lá:
1º SALIENTO ALGUMAS INFORMAÇÕES COM RESPEITO A POSIÇÃO DA CFB89,
Devemos recorrer aos escritos dos pais batistas que foram responsáveis pela edição da CFB89. Usarei Hanserd Knollys, Nehemiah Coxe, Benajmin Keach, John Norcott (e William Kiffin).
Todos concordam com a cfw no que diz respeito ao Pacto de Obras com Adão. Coxe diz:
“Quanto aos termos e condições da aliança que Deus fez com Adão e toda a humanidade nele, tal aliança era um pacto de obras.”. Este Pacto de Obras é, com relação aos homens, único. Nenhum outro pacto foi como este. O próprio Coxe mostra o caráter único desse Pacto de Obras: “Sob essa aliança o homem foi deixado à liberdade de sua própria vontade. O homem tinha o poder e a escolha de obedecer e ser feliz para sempre; ou pecar e se expor à miséria eterna”.
No sentido de representatividade federal, portanto, existem duas alianças, a saber, o Pacto de Obras e o Pacto de Graça (que, segundo John Bunyan, é um Pacto de Obras com relação a Cristo, mas de Graça com relação aos pecadores). Benjamin Keach explica esses dois Pactos:
“A Primeira Aliança foi realizada com o primeiro Adão, para ele mesmo e sua posteridade, como o representante de toda a raça humana. Da mesma forma, também foi realizada outra Aliança feita com o segundo Adão, e todos os que n’Ele foram eleitos”
A confusão atual é com relação ao entendimento do que estas duas alianças significam, ou seja, dois pactos com representantes federais que, de acordo com seus atos, proporcionaram benefícios eternos aos seus respectivos descendentes. Neste sentido, existiu apenas dois pactos, a saber, de Obras e de Graça.
Os pais batistas não identificaram o pacto mosaico (também chamado de antiga aliança), nem quaisquer outros pactos subsequentes com o Pacto de Obras realizado com Adão, apesar do mosaico ser organicamente ligado ao adâmico (pois é condicional). Eles estão organicamente ligados, mas não são o mesmo substancialmente. Por união orgânica quero dizer que o pacto abraâmico, por exemplo, prometeu a linhagem até o Cristo, no mosaico foram prometidos nação, um sacerdote e profeta, no davidico, um reino e um rei para reger a nação. Eles também relembraram a condicionalidade que houve no Pacto de Obras feito com Adão. A leitura equivocada de Thomas Patient, por exemplo, pode levar a crer que a Antiga Aliança é o Pacto de Obras do Éden. Seu livro “O batismo e a distinção das alianças” carrega a ideia de união orgânica. Todos os pactos do AT carregam um caráter condicional para relembrar o Pacto de Obras, ou seja, estão organicamente unidos, mas não são o mesmo substancialmente.
John Norcott deixa claro que há distinção substancial entre os pactos adâmico e mosaico:
“[Deus fez um pacto com Abraão e sua semente?] Resposta: O que você quer dizer com pacto? Você se refere ao pacto feito no monte Sinai ou o pacto de obras [com Adão]?”
O entendimento dos pais batistas, portanto, era que os pactos após a queda foram organicamente unidos, mas, ainda, eram pactos em si mesmos. Todos eles subservientes ao pacto eterno que existia durante o Antigo Testamento em caráter de promessa. Isso significa que não houve formalização do pacto eterno até Cristo. Por subserviente quero dizer que continham a promessa de vida eterna e serviam como sombras e tipos para mostrarem essas promessas. Estes pactos subservientes foram etapas revelacionais até que o pacto eterno fosse no tempo (no sangue de Jesus) formalizado. A confissão deixa isso claro:
“Esse pacto [de graça/eterno] está revelado no evangelho: primeiramente na promessa feita a Adão […] depois, por etapas sucessivas até que sua plena revelação foi manifestada no Novo Testamento”
Portanto, a nova aliança é a manifestação temporal do pacto eterno. A confissão afirma: “o pacto está fundamentado na eterna aliança que havia entre o Pai e o Filho”. A cfw, por outro lado, afirma que o Pacto com Abraão foi a primeira formalização do Pacto de Graça. Isso, a cfb89 nega veementemente.
Outra confusão diz respeito ao termo Antiga Aliança. Por Antiga Aliança queremos dizer Pacto Moisaico. Quando se diz que a antiga aliança foi uma aliança de obras, não significa que foi no sentido do Pacto de Obras, como aquele feito com Adão. Também não se diz que a Antiga Aliança tem alguma relação com a salvação eterna, a não ser, é claro, em sua tipologia. O Pacto com Moises é um pacto que não dá, por ele mesmo, vida eterna ou morte eterna, mas morte ou vida na terra prometida. Trata-se de bênçãos ou maldições temporais. A antiga aliança, por causa da unidade orgânica, caso de Thomas Patient, é também uma expressão que resume todas as alianças do Antigo Testamento.
Quanto ao Pacto com Noé, os pais também creram que ele é subserviente ao pacto eterno, entretanto, por ser um pacto em si mesmo, não teve sua “administração (como é dito pelos pedobatistas)” extinta. Em outras palavras, ele continua vigente. Coxe explica:
“Quando Deus faz uma aliança ele a está estabelecendo porque sua promessa é uma garantia completa e suficiente de que ele realizará aquilo que está acordado até o fim […] Os benefícios e as bênçãos particulares dadas à humanidade por essa aliança foram: fecundidade para repovoar a terra; domínio sobre as criaturas e o livre uso das mesmas para alimento; e a garantia de que o julgamento do qual eles haviam escapado não mais se repetiria”
E ainda acrescenta:
“Gerações futuras até o fim do mundo estão tão envolvidas nessa aliança como a descendência imediata com quem ela foi feita inicialmente. Eles têm o mesmo direito às bênçãos da aliança independentemente de seus pais diretos”
Em resumo, quando dizemos que os pactos possuem administrações distintas tanto quanto substâncias distintas, queremos dizer que a Antiga Aliança (aquela feita no Sinai e que está organicamente conectada aos pactos do AT) não é substancialmente o Pacto de Graça. Ela apenas revela o pacto eterno (de Graça) que existe em caráter de promessa. Já a Nova Aliança é o próprio pacto eterno (de Graça) que está formalizado no sangue de Jesus.
2º DESCREVO AS RAZÕES PELAS QUAIS OS PRIMEIROS BATISTAS ASSUMIRAM O FRAMEWORK DA CFW
Analisemos o contexto histórico dos primeiros batistas reformados (isso mesmo, nós que subscrevemos a cfb89, não defendemos uma linha sucessória de batistas desde Adão ou João Batista).
O movimento dos batistas particulares teve início no separatismo inglês. Os separatistas, como a maioria dos cristãos, protestantes ou católicos, acreditavam no batismo infantil. Como o batismo era o símbolo da admissão na igreja, eles aceitaram crianças, pelo menos, provisoriamente, como membros da igreja. Apenas crianças cujos pais ou responsáveis eram membros receberam esse privilégio, mas a própria criança não deveria exibir nenhum sinal de favor divino além da escolha dos pais.
Nesta mesma época surgiu uma intensa controvérsia entre presbiterianos e congregacionais a respeito da fé salvadora e da membresia de uma igreja local. O puritano William Ames ensinava que “a profissão da fé verdadeira é a nota mais essencial da Igreja” e “a profissão torna visível uma Igreja”. Foi neste contexto que muitos compreenderam que somente os crentes poderiam se beneficiar dos privilégios do Pacto de Graça e que o batismo infantil não pertencia ao princípio regulador do culto. Para resumir, muitos pedobatistas se converteram ao credobatismo.
É neste contexto que precisamos compreender a posição de alguns batistas como John Spilspury. Ele era um ex-pedobatista que contribuiu e subscreveu somente a cfb44, não a cfb89. John carregava toda ideia da pactual de Witsius, W. Perkins e, principalmente, W. Ames. Neste momento, a doutrina estava sendo melhor desenvolvida pelos pais batistas, especialmente, Nehemiah Coxe.
Batistas que subscrevem a cfb44 podem subscrever o capítulo 7 da cfw sem problemas porque a confissão é genérica (com relação ao pacto de graça no antigo testamento). O mesmo não ocorre para a cfb89.
Os pais retiraram os dois últimos parágrafos que afirmavam administrações distintas de uma mesma substância. Esse é o ponto fundamental da distinção entre a cfw e cfb89. Além disso, acrescentaram as expressões “primeiramente, na promessa feita a Adão” e “depois por etapas sucessivas” para mostrar que os pactos do AT são pactos em si mesmos que possuem a função de revelar a promessa do pacto de graça, “até que sua plena revelação foi manifestada no Novo Testamento”. Portanto, os pais batistas foram muito detalhistas e exatos. Eles não foram genéricos, muito menos politicamente corretos, antes, modificaram exatamente aquilo que era necessário.
3º COLOCO UMA RAZÃO PELA QUAL BATISTAS ATUAIS SÃO INCONSISTENTES.
Com o ressurgimento ou a descoberta da teologia reformada entre os batistas brasileiros, muitos procuraram fontes antigas para compreender melhor a teologia pactual. Por causa do nosso contexto brasileiro, temo que esteja ocorrendo três coisas:
Primeiro, os batistas estão recorrendo basicamente a materiais presbiterianos para redescobrirem a teologia reformada. Infelizmente são poucos que podem se desfrutar dos materiais antigos e modernos. As obras dos grandes pais batistas ainda não foram traduzidas e muitos materiais são extremamente difíceis de serem achados. Blogs presbiterianos são mais numerosos que batistas de confissão reformada. E, dos poucos reformados que conheço, a maioria não subscrevem integralmente a cfb89 ou são inconsistentes – alguns até mesmo pentecostais.
Segundo, as diferenças entre a cfb89 e a cfw, para o leitor desatento, podem parecer corriqueiras. Até mesmo a definição de lei positiva e natural faz uma grande diferença no capítulo 1, por exemplo, e isto é ignorado.
Terceiro, vejo muitos batistas recorrendo a John Gill. Creio que ele tem muito a contribuir, até mesmo para a teologia pactual. Entretanto, acredito que John Gill tenha abandonado o ensino de Knolys, Coxe e Keach para assumir a posição de John Spilsbury. Não tenho nenhuma evidência disso, mas creio que John Gill recorreu aos primeiros batistas da cfb44. Outros irmãos contemporâneos foram influenciados pela teologia de John Murray – presbiteriano e que nega, inclusive, o Pacto de Obras com Adão.
4º FAÇO UM PEQUENO CONSELHO AOS NOVOS ADEPTOS DA TEOLOGIA PACTUAL OU REFORMADOS
Vim de um meio pentecostal e dispensacionalista. Quando tive o primeiro contato com a teologia reformada e pactual me encantei. Entretanto, na mesma proporção, cometi inúmeros pecados.
Primeiro; o pecado do orgulho que se manifestou de quatro modos.
- Li meia dúzia de artigos e alguns vídeos de youtube e já me sentia doutor em Teologia Pactual. Para mim era simples: duas alianças, uma de obras e uma de graça. A de graça foi administrada de modos distintos. Por mais que existam defensores dessa posição, nada é tão simples assim. A própria Assembleia de Westminster registrou em suas atas grande número de posições com relação a esta doutrina. Foi depois de ler e estudar diversos autores que compreendi a complexidade do assunto.
- Eu queria aprender teologia para entrar em debates de facebook e “ganha-los”. Não buscava conhecer a teologia pactual para me aproximar de Deus. Não conseguia ver nela nenhuma razão prática de ser. Era tudo questão de embates teológicos, primeiro com dispensacionalistas, depois, ao conhecer John Gill, presbiterianos.
- Raramente buscava o auxílio do Espírito Santo. Confiei em minha capacidade intelectual. E digo, graças a Deus, fui muito envergonhado.
- Raramente ouvia, com seriedade, algum opositor.
Segundo; o pecado da inveja se manifestava de dois modos.
- Quando alguma pessoa tinha conhecimento superior ao meu, eu buscava algum motivo para realizar o ataque “ad hominem” ou acusa-lo de heresia. Eu não conseguia ver nada de certo na argumentação dos meus opositores, mesmo quando nossas posições se convergiam. Fazia isso por que eu inveja o debatedor.
- Eu corria para os blogs, artigos e vídeos para aprender algo que ele não disse. Depois, voltava ao post e fazia questão de escrever algo totalmente novo. Assim, eu era um dos responsáveis por eternizar brigas nas redes sociais. Eu entendia que deveria ter a última palavra, maior número de likes e maiores elogios.
Terceiro; o pecado do assassinato se manifestava de um modo.
- O assassinato, conforme o Senhor nos ensina não é somente físico. Muitas vezes senti vontades que se configuram assassinato no sentido bíblico. “Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento” Mt 5.22. O bloqueio era como se fosse um “tiro de 38” virtual ou uma morte virtual.
Não cometam os mesmos erros que eu!!! Enfim, espero que estas palavras sejam úteis a alguém 😊
Em Cristo…