Um pastor chamado Roger Williams apresentou-se à colônia de Massachusetts (EUA) com pesada crítica durante o século 17. Ele declarou que os puritanos das colônias americanas se equivocaram ao dar aos magistrados autoridade para governar sobre a vida religiosa das pessoas. O movimento de intolerância havia crescido na Nova Inglaterra (Estados Unidos, século 17) e Williams era contra a perseguição em nome de Deus. Batistas, quakers, anabatistas e quaisquer grupos que diferiam das posições teológicas do governo eram perseguidos. O caso mais famoso ficou conhecido como “As Bruxas de Salém”, quando, em 1692, alguns crentes puritanos, sob o aval do governo de Massachusetts condenaram a morte cerca de 20 pessoas acusadas, injustamente, de praticar feitiçaria. Os cristãos que governaram Massachusetts confundiram o reino comum dos homens com o reino do céu. Imaginaram que pela força política poderiam obrigar pecadores à verdadeira adoração. Aqueles puritanos imaginaram que política era o meio que Deus utilizaria para preservar a sua igreja e expandir o reino do céu que se instalava na Nova Inglaterra.
Entretanto, nosso Senhor ensinou que o reino do céu não é desse mundo, não pode ser ampliado pela espada. “Então, Simão Pedro puxou da espada que trazia e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita; e o nome do servo era Malco. Mas Jesus disse a Pedro: Mete a espada na bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” João 18.10-11. E outra vez disse: “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” – João 18.36. Quando a igreja deseja assumir o governo a fim de que a justiça religiosa seja cumprida ou que o reino do céu se expanda, comete o mesmo pecado dos governantes de Massachusetts. Foi em um contexto de confusão dos reinos que Abraham Booth ensinou:
Os reinos seculares estão sob a direção das leis humanas, que são frequentemente fracas, parciais e injustas. De leis que, quando persuadem imperfeitamente, estendem seu poder de obrigação a não mais do que ao comportamento exterior, pois seria vão e tolo um soberano temporal pensar em legislar os pensamentos ou desejos de qualquer súdito. As penalidade civis são a sanção das leis humanas e a força externa que lhes dá o seu poder. Não são assim as leis do santo império [Reino do Céu] – (Abraham Booth, An Essay on the Kingdom of Christ)
Alguns poderiam dizer: “Quando o justo governa o povo se alegra, portanto, a igreja deve tomar o governo para a nação se alegrar ”. Notem que o texto de Provérbios 29.2 contém um paralelismo: o domínio do ímpio se contrapõe ao domínio dos justos. Notemos os versos seguintes, em especial o verso 18: “O rei com juízo sustém a terra, mas o amigo de subornos a transtorna.” – Provérbios 29.4. E: “Não havendo profecia, o povo se corrompe; mas o que guarda a lei, esse é feliz.” – Provérbios 29.18.
Se o rei de Israel fosse justo, segundo as leis do pacto Sinaítico, o povo se alegrava. Outrora, quando o rei quebrava o pacto, a nação recebia as punições pronunciadas sobre o monte Gerizim (Deuteronômio 29.15-68). No período Pactual do reinado, a herança e bençãos da terra estava diretamente ligada a obediência representativa do Rei (Dt 17.18-19). O texto, portanto, narra uma prefiguração para o que acontece no reino celestial. Transportar os versos de Provérbios para o Novo Testamento sem o elemento cristológico resultará exatamente naquilo que pretendemos evitar, a saber, confundir o reino comum com o reino do céu.
O reino do céu foi inaugurado no ministério de Jesus. O Reino Nacional de Israel era um veículo de revelação e, por conseguinte, uma sombra tipológica do reino sublime revelado no Novo Testamento. Sob a luz do Novo Testamento entende-se que, no reino celestial, as palavras de Provérbios se cumprem: “Quando o Justo Rei governa, o povo se alegra”! Alegria plena e real são encontradas apenas no reino do céu – Marcos 16.19. Cristo é o Rei Justo. “Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: Rei dos Reis e Senhor dos Senhores” – Apocalipse 19.16.
Alegria no reino deste mundo não condiz com a substância da alegria proporcionada sob o reinado de Cristo. Nenhum homem pode proporcionar alegria perene ao reino da terra. Nosso Senhor nos alertou para essa verdade: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” – João 16.33. E ainda, por meio de Pedro nos alerta: “14 Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus. 15 Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem; 16 mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome.” – 1 Pedro 4.14-16
É pecado quando cristãos abraçam a causa socialista defendendo um governo “Justo” que trará alegria à nação. Um governo que toma dos ricos para dar aos pobres mostra-se demasiadamente injusto ao defender o roubo legalizado. “Não roubarás”, seja o indivíduo rico ou pobre. Roubar do rico para dar ao pobre é tão pecado quanto roubar do pobre para dar ao rico. Isso é a ética do Robin Hood. E é assim que o sistema de impostos funciona.
É também grande pecado quando cristãos abraçam a causa conservadora e tentam impor a moralidade cristã por meio da coerção. “Nossa luta não é contra carne ou sangue”. Nossa arma não é política, mas “a Espada do Espírito que é a palavra de Deus”. Portanto, de nada adianta impedir a entrada de muçulmanos no país, por exemplo, pois a única forma de muçulmanos não utilizarem hostilidade contra cristãos é se os tais se converterem ao Senhor Jesus Cristo. “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” – Romanos 10.14. De modo algum é justo levar os muçulmanos a reclusão por serem, simplesmente, muçulmanos. Também é um grande pecado defender a bondade inata do homem ou a plena liberdade como motor da justiça. Enquanto vivemos neste mundo devemos nos lembrar que a justiça é encontrada somente no reino do céu.
Ademais, no pacto com Noé, Deus prometeu que o reino do mundo não seria destruído pelos moradores do reino celestial, bem como, o reino celestial não seria destruído pelos moradores do reino do mundo. A existência mútua dos dois reinos é possível graças a lei do pacto com Noé, a saber, o direito de propriedade e à vida. Somente quando estes dois direitos são desrespeitados, segundo Gênesis 9.1-7, deve haver punições no reino dos homens. Quanto ao reino do céu, as regras são distintas e aplicáveis apenas aos regenerados. Exemplos dessas leis estão no modo de disciplina da igreja quando a regra moral é quebrada, na escolha de pastores e diáconos, na forma de adoração e nas prescrições das ordenanças.
Assim que Deus administra os dois reinos, impedindo que se destruam. Enquanto o pacto com Noé durar, moradores do reino celestial, governados pelo Rei Jesus, viverão em um mundo depravado, fazendo oposição aos ímpios de modo persuasivo apenas com a “Espada do Espírito que é a Palavra de Deus”. O reino do mundo existirá, depravado, governado por homens ímpios que fazem oposição ao reino do céu, causando dores e tribulações em ambos os reinos, porém sem destruí-los, até o grande e sublime Dia do Senhor. A política do reino comum não pode trazer esperança, alegria, paz ou segurança e sua justiça é limitada aos dois direitos do Pacto com Noé. O reino comum, em comparação com o reino de Deus, já está morto. Segundo 1João 5.19: “Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno.”. A única capacidade que o salvo tem ao assumir cargos públicos é zelar pela justiça do pacto com Noé, o direito à propriedade privada e a vida. Desse modo, nosso papel como cristãos é escolher o modelo menos injusto de autoridade. Não existe uma ordem que autentique o monopólio Estatal do magistrado civil! Se Romanos 13 defendesse o monopólio estatal, logo, o absolutismo monárquico – de Roma, especialmente – deveria ser retomado. Um mundo anarcocapitalista não é perfeito – somente no reino de Cristo encontramos a perfeição – , mas certamente é o modelo menos injusto de reino comum dos homens !